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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Artigos de Opinião

JUÍZO DO ANO

  


Sou leitor fiel do «Borda d’Água», publicação antiga que vai no número 95, neste novo ano bissexto de 2024, um precioso auxiliar para quem, seguindo o sábio conselho de Voltaire, se ocupa do cultivo do seu jardim. Falo de jardim em sentido próprio e metafórico, uma vez que o jardineiro é o melhor símbolo da cultura como realidade viva, na expressão de Zygmunt Bauman sobre as limitações da atual “modernidade líquida”. É sempre bom recordarmos que em janeiro se faz a lavoura das terras e a preparação das culturas de inverno, que em fevereiro as terras devem ser lavradas para a sementeira da Primavera ou que em março se prepara o milho e a batata de regadio e, se não há geada, já se pode pensar na semeadura do trigo, da aveia, do centeio e da cevada. E em tudo isto é importante seguir com cuidado as fases da lua…. Eis como devemos ser menos desatentos relativamente à vida da natureza…

Em cada número desta publicação benfazeja há sempre um “Juízo do Ano”, que cada um interpretará à sua maneira. Nestes dias de preparação do novo ano e de organização da agenda, comecei por registar as sábias palavras de Lídia Jorge no “Público”. “Tenho consciência da fragilidade absoluta dos regimes democráticos”. Esta consciência obriga-nos a uma atenção redobrada. A democracia é um sistema de valores, obriga à ética do serviço e da responsabilidade, e pressupõe o integral respeito dos direitos humanos, na sua complexidade. Se quiséssemos uma sociedade perfeita, ela poderia ser totalitária. Procuramos a dignidade de seres humanos livres e iguais. Longe das boas intenções, de que o inferno está cheio, devemos cuidar da cidadania inclusiva, da igualdade e da diferença e do bem comum, que não se confundem com uma terra de ninguém, em que à conta do relativismo dos valores podemos chegar ao desrespeito do pluralismo. Como disse Isaiah Berlin, “Tudo é o que é: liberdade é liberdade”. E o tempo que vivemos esquece muitas vezes os espaços de cada um, como lugares de respeito mútuo… Fala-se de democracias iliberais, como se estas não fossem grotescas contradições e impõem-se leituras unilaterais que são, de facto, excludentes, porque os extremos se tocam. A liberdade e a democracia são como as flores frágeis. Que o digam os jardineiros, porque todos os cuidados são poucos.

Há dias deixou-nos Jacques Delors. Conheci-o antes de se tornar um mito. Foi a sua militância cristã e cívica que acompanhei desde os anos setenta. Conversámos pessoalmente na passagem dos anos noventa para 2000. Falámos então sobre a atualidade do pensamento de Emmanuel Mounier, sobre a Educação de qualidade para todos no século XXI (a necessidade exigente de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser) e sobre as questões candentes da democracia e da construção europeia, que muito o preocupavam, como o alargamento, o défice democrático da União, a subsidiariedade, a representação dos cidadãos e o recuo na coesão económica e social. Em outubro de 2000, celebrámos na UNESCO em Paris, com Paul Ricoeur e Guy Coq, os cinquenta anos da morte de Mounier.  É marcante o seu exemplo e o conjunto de avanços que conseguiu na União Europeia como: a consagração da Coesão Económica e Social, a criação do programa Erasmus de mobilidade de estudantes, o Tratado de Maastricht, a adoção do Euro como moeda europeia. Tratou-se de cumprir: “a concorrência que estimula, a cooperação que reforça e a solidariedade que une”. Nas Semanas Sociais de Braga, em 2006, Delors disse que “alguns querem impor erradamente a tese segundo a qual o social seria um travão ao crescimento e à competitividade.”  A economia ao serviço da pessoa humana é “crucial”. Por isso, não podemos “aceitar que apenas os mecanismos do mercado determinem ao mesmo tempo o útil e o justo” – ou seja, a economia de mercado não pode tornar-se sociedade de mercado. No juízo do ano, fica a memória de um compromisso cívico democrático, sério e determinado.

GOM

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