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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


157. TURISTA E VIAJANTE

O turista não vai além daquilo que está à vista, do que vê nos postais, guias, revistas, vídeos de viagens e o que publica nas redes sociais, planeando e fazendo o que está certo, observando ao longe e privilegiando selfies e fotos, para aparecer, provar que existe e dizer: “Vejam, eu estou aqui e estive lá”.   

O viajante, em geral, não é turista, é alguém que explora, chega a um determinado lugar e descobre, improvisa, planeia e segue ao sabor do vento, foge às rotas mais típicas e massificadas, é altamente opinativo, de subtileza no olhar, sem perder os lugares imperdíveis e os alternativos. 

Vivendo numa espécie de ecrã global, em que todos querem aparecer a qualquer preço, em que conta, cada vez mais, o que projetamos de nós numa imagem, vendo a vida através de uma câmara, há que saber distinguir entre os que estão essencialmente preocupados em visitar os lugares mais na moda e populares, tirar selfies para provarem que estiveram lá (turistas) e os que querem conhecer, descobrir, experimentar e sentir outros locais e culturas através da história, tradições, modo de vida e gastronomia local, tirando fotografias para memória (viajantes). 

Nem todas as pessoas, incluindo turistas ou viajantes, publicam as suas imagens de viagens nas redes sociais, tipo “Maria vai com as outras”, em obediência ao modismo narcisista “se não te mostras, não existes”, pois nem todos os outros têm de estar informados de tudo o que fazemos, sob pena de exclusão da nossa privacidade.

Em ambas as situações há uma antecipação da viagem, que nos dá a diferença entre o modo como imaginamos um lugar e o que pode acontecer quando lá chegamos, havendo a ideia de que a realidade da viagem não é o que antecipamos mentalmente, podendo-o ser para melhor (otimistas) ou para pior (pessimistas), sendo tido como mais seguro sugerir que é, antes de tudo, fundamentalmente diferente.   

E se, por um lado, em ambos os casos, a memória opera um processo de simplificação e de triagem de imagens das viagens feitas, em que a memória ativa não reteve mais que um número restrito delas, que sobrevivem conscientemente, também é verdade que enquanto o turista visita o eventual lugar dos seus sonhos, o viajante visita mais lugares dos seus sonhos por onde quer viajar.


12.01.24
Joaquim M. M. Patrício

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