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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


161. O MELHOR E O PIOR NAS ARTES E NA VIDA


“É muito libertadora a facilidade, sempre que ouvimos a música de Wagner, com que nos esquecemos da maldade do compositor. A razão é simples: a música é muito boa. Deve haver uma escala de correspondências morais entre os defeitos humanos de um artista e as qualidades artísticas das coisas que criou. Se foi – ou é – muito má pessoa, as obras de arte têm de ser muito boas. Wagner tinha muitos defeitos para compensar, mas compensou-os.


Também há artistas que são humanamente muito bons, mas que artisticamente são infernalmente maus. Talvez sejam bonzinhos por serem tão maus. Nisso, parecem-se com os bons artistas que acham graça serem mauzinhos como as cobras.


Talvez a maldade tenha uma tabela de preços: quanto maior, mais se tem de pagar em obras de arte”
(Miguel Esteves Cardoso, A Tabela de equivalências, Público, 22.01.24).     

Eis um exemplo de um bom compositor e de um mau cidadão. Do que há de melhor na música, a maior de todas as artes, para muitos, e o que há de pior na sua vida, conhecida pelo seu anti-semitismo, prosseguido por descendentes (o que não significa que, o que com acutilância, ironia e perspicácia é citado, seja adequadamente extensivo e científica e diretamente proporcional à maioria dos criadores).     

A História está cheia de pecados e vícios privados, tantas vezes horrendos e ocultos, de homens e mulheres das letras, ciências e artes em geral que foram e são pessoas canonizadas e consagradas pela sua obra, mas desaconselháveis, maus exemplos ou desprezíveis em função de uma moral pública e legal vigente, em convivência com sórdidas histórias de família.

Pergunta-se: pode o autor ser menos avaliado do que as ideias que defende enquanto indivíduo, pessoa singular ou cidadão comum, separando a obra do seu criador?

Considerando que uma obra vale e deve valer por si, ao arrepio das opções pessoais do seu autor, do politicamente correto ou das políticas que a divulgam ou promovem, sempre entendemos que pode e deve separar-se o valor intrínseco da obra do seu criador, quando falamos de criação artística, por exemplo.   

O que não exclui ser legítimo saber o essencial da biografia dos criadores, alguns tidos por génios ao pretenderem ajudar a regenerar, revolucionar e alterar a natureza humana, o que nos leva a concluir que o mundo não pode ser apenas modificado e remodelado pela força do intelecto, das ideologias, ideias e conceitos, havendo que averiguar e examinar de perto a vida das pessoas, in casu, dos autores das coisas criadas.

Sem esquecer que a arte é um espaço de liberdade onde tudo é possível, onde podemos colocar o que há de melhor e pior em nós à revelia do sistema, em que esse melhor e pior é parte de quem somos como seres humanos evoluíveis, defectíveis e perfectíveis.


09.02.24
Joaquim M. M. Patrício

4 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. Não sei por onde vou. Sei o que sou. Acho que o Miguel Esteves Cardoso devia basear a sua escrita na realidade e nunca deixar-se inspirar por pessoas de mal dizer.
    Limito-me a transcrever o início de Arte Poética III de Sophia de Mello Breyner Andresen: “A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objetividade do meu próprio olhar.”

    1. Ao escrever sobre a música e a vida de Wagner, Miguel Esteves Cardoso expressa uma opinião tida maioritariamente como consensual. Quanto ao que escreveu, por acréscimo, ele melhor que ninguém poderia responder.
      De todo o modo, a democracia, em termos abstratos, não só nos mima com o direito ao conflito, à rejeição e à partilha, mas também com o direito à acutilância, à ironia e à asneira.
      Muito obrigada pela sua leitura e comentário.
      JP

      1. Obrigada eu, pela sua resposta. O meu comentário era, de facto, à margem. Traduziu exactamente, o que me ia na alma. Não pretendo esclarecer nada com Miguel Esteves Cardoso. Ele defenderia os seus amigos, o que seria natural. Como dizia a minha avó Lúzia: ” Fico-me nas minhas”.

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