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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

DIGO, PORQUE SEI

  


A aldeia descansava do corpo sangrado e abria-se aos sinos de domingo que, de algum modo, pediam coragem e fé.

O cansaço que lhe cabia ao domingo suportar, devotava-o à missa, e o sentido simples de que a vida começaria de novo lá onde se encomendavam as orações mais perto de Deus, aportava uma sedução serena e cândida de que o azeite aguardado pelas lamparinas era um sinal que pressagiaria a esperança.

– Venha. Venha comer connosco, senhor Prior. Recebemos carta do meu irmão. Há-de estar há quatro dias por ler. A gente não sabe ler. A gente só magica. Cada qual é o que é e deve dizê-lo honradamente somos isto e nada mais. Não conhecemos as letras. Tenha paciência, venha lá com a gente, a minha São tem lá uma sopa que é um gosto, a gente toma e até geme de tão boa.

– Tem paciência! Hoje não posso ir, mas irei na semana. Disseram-me que a vossa leira está linda, com Deus!

– Sim, mas a carta, ali pousada. Não a consigo engolir para a alma me dizer se meu irmão é vivo lá na guerra.

– Está tudo bem. Vais ver. Não te apoquentes. De que vale? O que lá vai, lá vai…ele foi chamado para a guerra. Deixa lá! Ele ainda te vai dar muitas alegrias. Não tem morrido ninguém. Só do outro lado. Entendes?

– Entendo. E isso é bom? – E uma lágrima rompeu-lhe pelo rosto.

– Então não?

– Não sei. Nem sei o que faça. Até acho que perdi o meu irmão desde que partiu. E se meu irmão voltar não é o mesmo. Ele era pacífico e nunca matou um animal sem a razão da necessidade. Então acho que, ou já morreu, ou virá ressuscitado num outro.

– Credo! Que dizes? Abres a boca e pecas.

– Eu peco por saber que o meu irmão até o nome perdeu e é um número?  Ele, batizado por si aqui na pia batismal com nome de Aires? Recorda que disse que ele ia ser um rebento de truz? Eu peco por ele aceitar as ordens lá na guerra sem saber do compromisso com a morte? Eu peco se ele vier mutilado e eu me zangar? Eu peco por ser mãe e pai dele pois somo órfãos e nem sei de que rebanho o perdi? Sim, perdi, Senhor Prior. O que está naquela carta é que a aldeia já fugiu dos olhos do meu Aires por submissão às leis das guerras que não são nossas, e já lhe vejo cotos em vez de braços e vir depois à enxada não é o mesmo que filho pródigo em alegria. Mas ele é inocente, senhor Prior, e eu culpado sim, culpado porque quando o vi na carruagem da partida, de lá não o arranquei. Eu peco, mas eles levam as crianças para a morte. Levaram o meu Aires que tão atento se fazia aos campos como ao arco, indefeso de tanta mocidade. Eu peco. Ah se peco!

A carta já ardia no fogo. Parecia-lhe que passara meio século. A camioneta da carreira não o trouxe. A carruagem do comboio também não. Aires não regressara nunca mais ao aconchego das sopas familiares. O novo padre confirmara-lhe a inocência do irmão e a sua, mas nada lhe mudou o mundo de rumo.

Desandou ao lameiro e já não se interrogava. E já não se compreendia. Aos outros, sempre a mesma resposta:

– Digo, porque sei.

– Como é que sabes?

– Sei.

Teresa Bracinha Vieira

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