Pela primeira vez na História a humanidade é hoje compelida a sair da lógica da guerra e do depauperamento incondicionado do ambiente. Parece que pode começar uma inversão da tendência com a assunção da consciência de que desta maneira não se pode seguir por diante, sob pena de destruir a humanidade a provocar a desolação do planeta.
Se nas últimas décadas constatámos de uma forma crescente que se estão a dar grandes passos rumo à barbárie, parece emergir agora uma reação que ainda não é a «insurreição das consciências» invocada por Pierre Rabhi, mas é a reiteração, de novo, da necessidade urgente de humanização.
São significativos, a propósito, os títulos de alguns ensaios filosóficos e sociológicos que apelam à humanização da modernidade, da política, da sociedade…. Perante as crises globais que se abateram sobre nós, como a pandemia, as crises económicas, as guerras nas fronteiras da Europa e do Mediterrâneo (portanto junto á nossa casa e, na realidade, guerras que também nós estamos a combater ao fornecer armas aos beligerantes), como afirmar um humanismo que seja um objetivo almejado com convicção pelas várias humanidades que fazem parte de um tecido da vida, da comunidade global?
É por isso que a pergunta séria e urgente que devemos colocar-nos não é sobre Deus mas sobre o mundo humano: «O que é o humano?». Pergunta na verdade antiga, que significativamente reencontramos no início e no fim do Saltério hebraico: «O que é o Homem?».
Devemos refazer-nos estas perguntas sobretudo hoje, porque o humano está esmagado entre o inumano e o pós-humano.
Conhecemos bem o inumano como possibilidade de depredação e negação do próprio humano: quando o ser humano é reduzido a “res”, coisa, quanto é humilhado e reduzido ao nada, distorcido pelo ódio e pela violência dos massacres e dos genocídios, desconhecido nos migrantes que apenas invocam compaixão, o inumano reina e nega o rosto à pessoa, nega a sua vida.
E é sempre permanente a necessidade de discernir o desumano também na nossa vida quotidiana, nas relações pessoais entre familiares e conviventes, nas situações onde falta a palavra apropriada, o respeito que sabe reconhecer o outro, a mansidão que pode assegurar a paciência recíproca. Bernanos escrevia: «A barbárie aninha-se nas fronteiras das nações como nas casas mais humildes».
E todavia hoje o humano está também desconfiado do pós-humano, ou seja, esse novo estádio evolutivo da humanidade no qual o cruzamento entre biologia e tecnologia está cada mais omnipresente. Deveremos alimentar muita inquietação perante estas novas oportunidades que poderão chegar a negar o corpo para o substituir com estruturas artificiais munidas de elementos de inteligência humana. Ao “homo sapiens” sucederá a “macchina sapiens”? E não será este talvez um delírio de omnipotência que deseja ser capaz de transumanismo até chegar a negar a mortalidade?
Pessoalmente nutro uma tal confiança na humanidade que não acredito que seja possível essa deriva e continuo convicto de que mais uma vez o “homo sapiens” saberá responder de maneira vital à pergunta que só ele sabe colocar-se: o que é o Homem? Porque há na humanidade um selo que pode ser pisado e negado, mas que é indestrutível e jaz como indestrutível na sua profundidade: a fraternidade. Ela tem a força de emergir assim como a terra, depois da água, do fogo, do vento, deixa despontar a erva e retomar a vida.
Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Gostei muito do texto. Eu, muito convictamente penso, que Jesus nos deixou o melhor dos exemplos de Homem. Claro, que temos que o situar no contexto histórico em que viveu. A história evoluiu muito depois dele e até o emolduraram numa cultura greco-romana com muitas vantagens, mas também muitos inconvenientes. Jesus falava aramaico e possivelmente era um essénio. Os valores dos essénios são bons ainda nos dias de hoje.
“Catholicity is a dynamic, spiritual quality of being Catholic that literally means “becoming whole.” It is an inner principle which first burst forth in the life of Jesus and has the power to reconnect all the dimensions of life: spirituality, religion, the new sciences, culture, and society. Catholicity is a spirit of love, a love of the Spirit, which resists ideology and attracts new followers. Catholicity makes all things new. “If any be in Christ he is a new creature. The old way of living disappears. A new Way of living comes into existence” (2 Cor 5:17).
Ilia Delio 2015.
Muito obrigado pelo comentário. O texto que apresentamos é, como o leitor reconhece, muito rico. A sua leitura obriga-nos a reconhecer que sem a compreensão da dignidade, não entendemos a humanidade, como lugar de respeito e de diálogo, em nome da compreensão de que em lugar da indiferença, necessitamos de compreender as diferenças e a rica relação com os outros.