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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


185. TUDÓLOGOS


São especialistas em tudo, dão palpites e pitaco sobre tudo, são “sabichões” que aparecem na tv, rádio, imprensa escrita, redes sociais, nos media em geral.


Diz-se que são formados em “generalidades”, falam, entretêm, escrevem e comentam tudo. Há quem os apelide de “comentadores”, “palpitólogos”, “achistas”, porque “comentam”, “palpitam” e “acham” isto e aquilo. 


Formatam o pensamento e são uma “elite” que ninguém elegeu.   


São um sinal da liberdade de expressão e um custo a pagar pelo imperativo de os canais televisivos, radiofónicos e imprensa em geral, terem de preencher o seu tempo 24 horas por dia.     


Podem ser muito bons, bons, medianos, medíocres, maus ou muito maus, consoante o contexto, a perspetiva e a subjetividade de quem os avalia e a recetividade dos seus destinatários.   


O seu conceito pressupõe um presumível conhecimento universal, independentemente de se ter ou não qualquer fundamentação, mesmo que uma mera especulação.   


Maioritariamente peremptórios, taxativos, assertivos e arautos de juízos categóricos, aparentam ser bem-fadados por iluminadas e inabaláveis certezas, favorecidos pelo dom do conhecimento instantâneo.   


Num mundo de inquietações e interrogações, onde há a convicção de que a verdade está para lá daquela que convencionámos ter como norma para vivermos em sociedade, em que quanto mais se aprende, mais se tem dúvidas, não faz sentido falar em tudológos (por mais sonante que seja soletrá-lo). Ou de tudologia, uma não ciência. Em França chamam-lhes editocratas: editorializam a realidade, colocando-a na agenda mediática.   


Perante a dúvida, a incerteza, o questionamento, a interrogação e o mistério da vida, falar em tudólogos, em especial do pensamento, é um contra-senso, é ser especialista, ao mesmo tempo, em tudo e em nada, num permanente confronto e contraditório entre ação, contestação, réplica e tréplica, em que a “sentença” é a verdade possível de uma opção em que temos de ser nós a decidir uma verdade que temos como real. 


Antes “comentadores”, “especialistas”, “analistas”, que a babel dos “tudólogos”, sem desprimor para a flexibilidade e riqueza vocabular da língua portuguesa.    


26.07.24
Joaquim M. M. Patrício

2 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. TV, rádio …desligados cá em casa. Redes sociais também lá não vou,
    desconheço-as. Apenas escrevo neste blogue porque sei que os comentários são moderados e aceites ou não.

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