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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
    Imagem: Freepik


196. PARADOXOS

Impressiona que o “Norte” ocidental seja maioritariamente estigmatizado como  imperialista, colonialista, neocolonialista, capitalista, xenófobo, racista, esclavagista,   islamofóbico, entre outros desdéns, desde logo provenientes do “Sul” global e, ao mesmo tempo, ser avidamente procurado por populações que põem a vida em perigo através de barcos e caminhos pedestres improvisados, em busca de um bem-estar que lhes é negado nos seus países, mas que sofregamente desejam alcançar num Ocidente  tão desacreditado. 

Não se emigra, hoje, nem se pede asilo político ou o estatuto de refugiado, ansiosa, ávida e desejosamente, para países onde não funcionam as regras mínimas de um Estado de Direito e dos princípios democráticos (mesmo que imperfeitas), pois não há essa emigração e procura para países como a Coreia do Norte, Afeganistão, Cuba, Venezuela, Irão, Rússia, China, estados árabes ricos como a Arábia Saudita, tidos, por tantos, como anti-imperialistas, anticolonialistas, anticapitalistas, antirracistas. Em contrapartida, emigrasse, pede-se asilo político e o estatuto de refugiado, ansiosamente e com avidez, para os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália, países da União Europeia e alguns mais que, de tão predatórios e vilipendiados, deveriam ser evitados. 

O que os move? Muitas razões, sem dúvida. Muitos aspiram à integração, com gratidão e reconhecimento, através da adesão aos valores cívicos dos países de acolhimento. Outros não se integram e são portadores de uma rutura e separação em relação a quem os acolhe, culpando-os por terem alguma coisa que acreditam merecer mais, dando azo a ressentimentos recíprocos, deles próprios e de quem os recebe.

De todo o modo, se o Ocidente é tão opressivo e explorador, é um contrassenso ser procurado por quem o abomina e tem como a causa de todos os males. Também é incongruente muitos dos seus nativos demonizá-lo porque, no essencial, tudo ou quase tudo é mau e nele nada ou muito pouco encontram de bom, pessoas a quem faltará, por certo, viver outras experiências em latitudes mais próximas da sua ideologia onde, por vezes, uma mera discordância os condenaria para sempre (sendo mulheres, em alguns desses países, maior será a punição).


17.01.24
Joaquim M. M. Patrício

5 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. Muito interessante reflectir sobre estas contradições. É realmente pertinente questionar as motivações e os desafios deste fenómeno, bem como a complexidade das relações entre quem acolhe e quem é acolhido.
    SRC

  2. Li, como sempre, com interesse os textos neste blogue, mas lamento que este texto, procurando sublinhar uma contradição, é ele próprio um poço de contradições e equívocos, seja pelo vocabulário, seja pelo raciocínio, mesmo descontando as ‘aspas’ (Norte / Sul). Misturar conceitos atuais e ativos (como neocolonialismo, xenofobia, racismo…) com outros de caráter histórico (imperialismo, esclavagismo, colonialismo…), não me parece sério. Se estes últimos não se podem negar, são factos históricos irrefutáveis (entre muitos outros), e se os outros constituem hoje uma triste realidade nossa (basta ver a vertiginosa ascensão da extrema direita por toda a Europa), a conclusão não é a que, infelizmente, tira. Apesar dos problemas históricos e dos atuais, ambos reais, quem nos procura fá-lo, apesar dos pesares, com o mesmo nó na garganta, sofrimento, tristeza e risco, com que nós o fazíamos a salto para França, para os EUA, Brasil, Venezuela, A. Sul ou, contrariados, como colonos para as “colónias”, para a “terra dos pretos”. Cada um, em cada tempo, sabe as contradições que leva na “mochila”, para fugir, do medo, da miséria, da morte. A generalização que o texto expõe é injusta, inadequada e incorreta. A não ser que, para nós, ser racista, intolerante, xenófobo, é uma verdade (que não generalizo) que depende apenas de quem a diz. Como português posso apontar todos os “males” e “defeitos” que aí enumerou, mas um ‘estrangeiro’ não. Porquê? Passa a ser falso? E se for imigrante significa o quê, ‘mentira’, ou será ingratidão (segundo aquele ditado “Mordem a mão que lhes dá de comer!”)? Pior, um ‘bom imigrante’ seria então aquele que fingia não conhecer a história, que engolia em seco, por gratidão, tudo o que temos de negativo e ficava humildemente a um canto quedo e mudo!? Que venham os imigrantes, que bem precisados deles estamos. Se trouxerem de nós uma ideia errada, estou certo de que a nossa cultura e o nosso acolhimento saberão conquistá-los e fazê-los mudar de opinião. Se o que pensam de nós corresponde ao que somos, então bem vindos são, para nos lembrarem dos nosso problemas, e o que temos de fazer para nos tornarmos melhores seres humanos. Espero, sinceramente, ter lido mal o seu texto, cujas ideias tem totalmente direito.

    1. Dou-lhe toda a razão José Cunha! O que para mim, fica bem claro, é que o autor da crónica não teve nos seus progenitores, pais, avós, bisavós e outros, emigrantes, porque passavam fome em Portugal.
      Há uma grande diferença entre viver de barriga cheia e viver de barriga vazia a ver os seus filhos a morrer de fome. Seja homem com H, J. Patrício!

      1. Engana-se, cara leitora! Tive e tenho familiares emigrantes.
        Reitero, de todo o modo, que o texto não é contra a emigração e os emigrantes, mas apenas uma reflexão sobre algumas complexidades relacionadas com a sua temática (extensiva aos pedidos de asilo político e refugiados), podendo-se ou não divergir, em conciliação e convivência com um debate que se quer construtivo e se pretende alcançar através de uma pluralidade de opiniões em democracia.

  3. Embora o texto não desvirtue (nem condene) a emigração, imigração, migrações, pedidos de asilo ou os refugiados, há que reconhecer (e é compreensível) que gere debate e reflexão, diálogo e pluralidade de opiniões, como muito bem o exemplificam os seus dois comentários, de leitura e interpretação dessemelhante, que se inserem na pluriculturalidade destas crónicas e deste blogue, o que muito agradeço.

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