Herbert Haag
A crónica da semana passada terminava com a pergunta: Por que é que o acesso das mulheres ao ministério sacerdotal não teve sequer possibilidade de ser colocado no Documento Final do Sínodo sobre a sinodalidade, aprovado pelo Papa Francisco em Outubro de 2024? E prometia tentar na crónica de hoje explicar como esta é questão decisiva na Igreja.
A discriminação das mulheres pela Igreja oficial constitui um escândalo e um pecado. De facto, é contra os direitos humanos e a vontade de Jesus. Tentarei desfazer equívocos para ir ao essencial.
1. O próprio Papa Francisco tem impedido colocar a questão, argumentando que “o sacerdócio é reservado aos varões, como sinal de Cristo Esposo que se entrega na Eucaristia”.
Como responder? Sim, Jesus é a visibilização de Deus, mistério indizível, em humanidade. O Evangelho segundo São João escreve que o Verbo (o Logos, Palavra) se fez carne (em grego, sarx), humanidade frágil. Sim, Jesus é homem, mas, como faz notar Marta Zubía, o que o Evangelho quer dizer é que o Verbo se humanizou, não que se varonizou, que “se fez homem (anthropos, homo) e não que se fez varão (aner, vir). Deus não se humanizou na sexualidade de Jesus, mas na sua pessoa, na sua humanidade. Esta redução, agravada pelo uso exclusivo de linguagem e imagens masculinas, leva a considerar a masculinidade, pelo menos na prática, como uma característica essencial do próprio Deus.”
2. Neste sentido, há quem argumente também que na Última Ceia só havia homens, os Apóstolos – afirmação muito discutível – e que só a eles foi entregue o governo da Igreja. O teólogo Herbert Haag, talvez o maior exegeta do século XX, respondeu que então, uma vez que todos eram judeus, só se poderia ordenar judeus!…
3. Jesus trouxe por palavras e obras a melhor notícia que a Humanidade teve: Deus é bom, Pai/Mãe e todos os homens e mulheres são seus filhos e, portanto, irmãos. Isso era intolerável para os interesses do Templo e do Império, que se coligaram para o assassinar. Portanto, Jesus não foi vítima de Deus, mas dos homens. Que Deus seria esse que teria precisado da morte do Filho para aplacar a sua ira? Note-se que Joseph Ratzinger, quando era só professor, escreveu que recusava acreditar que Deus se tornou “misericordioso” só depois de ver satisfeita a sua “vingança”. Opondo-se à teologia da “satisfação” que situava a cruz “no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido”, rejeitou a noção de um Deus “cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa”.
4. Foi também Herbert Haag que mostrou que as primeiras comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, um banquete festivo, recordando a memória de Jesus, o que Ele disse e fez, a sua morte e ressurreição, e aprofundando o seu compromisso na realização do Reino de Deus… Quem presidia era um cristão ou uma cristã com uma casa melhor para se juntarem. Foi com a interpretação da Eucaristia como sacrifício que surgiram os sacerdotes, com uma ordenação sacra, o que levou, contra a vontade de Jesus que disse: “sois todos irmãos”, à divisão em duas classes: clero e leigos…
5. Como mostro no meu mais recente livro – O Mundo e a Igreja. Que Futuro? -, a Igreja sempre teve carismas, funções, ministérios…, mas nem Jesus, nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes. Ela precisa de uma profundíssima reforma, e a não-discriminação das mulheres é essencial.
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 24 de janeiro de 2025
Bom dia Senhor Padre e Professor
Anselmo Borges
Obrigada! Admirável crónica! Haverá ainda, como sabe muito melhor que eu, muito mais a dizer.
Limito-me a transcrever a segunda canção de Maria Madalena que integrava a Bíblia dos Abandonados e que vi no 7Margens.
“XIX – A segunda canção de Maria Madalena – Noli me tangere
Vou dizer o que vi: nada a não ser o túmulo vazio
Vou dizer o que ouvi: alguém a dizer-me ele não está aqui
Vou dizer o que senti: não foi com lágrimas que o conheci.
Eu passara as mãos pelo corpo morto do mestre
Cobrira-o de perfumes, alinhara as pregas do sudário de linho
Até o manto plenamente branco se ajustar ao cadáver plenamente frio.
E assim deixara o sepulcro até o dia seguinte em que o iria visitar
E voltaria a tocar na carne de quem nos tocou o coração.
Só te podemos conhecer por lágrimas?
E assim aos irmãos corri a anunciar que roubaram o corpo do Senhor
Quando voltei ao sepulcro
Vi dois homens de luz
Um à cabeceira e o outro aos pés
Do que fora o trono de deus na terra
E onde repousara o mestre amado.
Perguntaram-me: porque choras?
E entre lágrimas respondi
Que tinham levado o meu Senhor
E não sabia onde o puseram.
Enquanto caíam as minhas lágrimas
Na mortalha branca onde depusera gotas de sândalo
Eis que o universo me chamou dali para fora
Com o impulso das coisas que têm de acontecer
Pela ânsia exaltada que nos faz buscar ….
A ânsia que a todos nos faz sofrer
De amor incondicional e irrestrito…
Ele veio ao meu encontro
E me perguntou por quem procurava
E da minha boca saíram as palavras
Se o tiraste, onde o puseste?
Foi então que escutei «Maria!»
As minhas entranhas revolveram-se
Aa lágrimas secaram subitamente
E a minha paixão tornou-se meu alívio
Não me toques nem me detenhas.
Não me detenhas, porque me vou embora
Vou-me embora, para ser de todos
Serei de todos, pois vou ter com o pai
Vou ter com o pai, e avisa os irmãos
Que eu ficarei a sofrer com eles até ao fim do mundo.
Que eu ficarei a alegrar-me com eles até ao fim do mundo
E então estarás comigo.
Desde então, o meu coração alvoroçado
Passou a tocar o meu mestre querido.”
Nota pessoal: Eu que nasci numa aldeia em pleno século XX, sei perfeitamente que nenhuma mulher trataria do corpo morto, se não fosse da família dele. E Maria Madalena não era mãe nem irmã.
Não fique aborrecido comigo. Só sou uma crente que se questiona.
As minhas mais respeitosas saudações.
Aldina
obrigada