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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


198. INTERPELAÇÕES SOBRE GUERRA E PAZ

A guerra é uma realidade histórica que tem acompanhado fielmente os humanos no seu percurso terreno.  

Se analisarmos o que aconteceu ao longo da História, concluímos que é mais fácil dar passos em direção à guerra do que fazer a paz, razão pela qual nunca houve, que se saiba, uma paz total no nosso planeta, pois subsistem permanentemente guerras, mesmo quando maioritariamente há paz.     

Se a bondade e a ferocidade são algo de inerente e natural ao ser humano, o ideal é o lado bom prevalecer e erradicar a destruição e a violência, em harmonia e conjugação de esforços por um bem maior e comum a toda a humanidade.   

Quem luta pelo poder quer conservá-lo, se necessário através da força, usando a guerra, no seu grau mais extremo, porque ninguém gosta de perder, o que leva os decisores políticos a prolongar negociamentos ao máximo da sua extensão, para não perderem a face ou não ficarem desapossados daquilo que eram os ganhos que anteciparam antes do conflito, sem esquecer a manipulação e o relacionamento com as suas próprias audiências e populações.   

Hobbes fala no “homo homini lupus”, que significa “o homem é o lobo do próprio homem”, sem preocupações metafísicas, o que explica, sob um ponto de vista racional, ser mais entendível fazer a guerra que a paz.

A paz perpétua, incluindo a de Kant, é tida como uma quimera, embora discorresse, com mistério, que a providência usava a guerra para preparar ou realizar a convivência pacífica dos povos. 

Mesmo que haja uma guerra justa e esta seja indispensável para obtenção da paz, a guerra é vista, infelizmente, como um instrumento essencial e insubstituível. 

Será que haverá, algures, uma civilização extraterrestre desconhecida que nos poderá resgatar, fazendo uso do culto e uso pacífico da paz, a tomarmos como referência, já que, entre nós, nem a religião, com os seus castigos e dogmatismos, se liberta do uso do poder pelo poder e do não querer perder?       

A resposta indicia-se negativa, se atentarmos na profusão de literatura fantástica e de ficção científica, pelas suas adaptações cinematográficas, em que há sempre vencedores e vencidos (como na vida real), os que nunca abdicam voluntariamente do poder porque não podem nem querem perder, em que outras civilizações entram em choque e guerra com a nossa, sempre pelo poder, querer vencer e ninguém querer perder, indiciando futuras guerras espaciais interestelares.       

Por princípio, todos gostam de ganhar e ninguém gosta de perder, e alguém tem de ganhar e perder, pelo que a guerra e a paz existem, como parte necessária do ser humano. Mesmo que se tenha a guerra um absurdo, uma derrota e uma mentira, será realista (embora desejável) olhá-la como uma contingência não irredutivelmente eterna? 


31.01.25 
Joaquim M. M. Patrício

4 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. Reflexão muito pertinente nos tempos que correm sobre a natureza inerente da guerra na história humana.

    Confesso que, tendo em conta esta dificuldade mencionada de alcançar a paz e a tendência dos homens para o conflito, preocupa-me pensar no futuro da humanidade e na possibilidade (ou impossibilidade) de um mundo sem guerra.

    SRC

    1. “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”- Livro de Svetlana Alexievich, Prémio Nobel da Literatura.

  2. Bom dia J. Patrício!
    Presumo que não apreciará muito os meus comentários. No entanto, gostaria de lhe dizer que na Idade da Pedra Antiga, mais precisamente no Paleolítico, a evolução humana prosseguiu lentamente e, no seu ponto mais desenvolvido, a caça e a colecta de plantas silvestres, permitiam um sistema extremamente estável e sofisticado, com população, poder e recursos, todos finamente equilibrados e em sintonia com o mundo ao seu redor. A vida era comunitária, aberta e mágica.
    Ninguém era dono de nada: “trabalho, talento, habilidade e senso artístico eram os principais bens humanos que as pessoas possuíam”. Apesar dos argumentos dos antropólogos, havia apenas uma tendência, longe de ser completa, de dividir tarefas entre homens (os caçadores) e mulheres (os colectores).
    Devido à sua experiência com plantas, foram as mulheres que descobriram as virtudes da sementeira, em vez de comer tudo imediatamente, começaram a guardar sementes e a cultivá-las. Não havia nada que se assemelhasse a guerra.
    Por volta do sétimo milénio a.C, os homens assumiram o pastoreio e, segundo Fisher, também descobriram a criação de animais. Mais tarde, de acordo com o antigo historiador e poeta grego Hesíodo, houve múltiplas invasões do Norte para o Oriente Próximo por pastores guerreiros que vieram a cavalo, com seus rebanhos – como vaqueiros. Eles trouxeram consigo uma tecnologia de armamento, um amor ao heroísmo e a cavalos. Eram patriarcas que dominavam a arte da criação de animais. Com o evoluir do patriarcado veio o capitalismo, a guerra e a criação de deuses, como poderá verificar neste artigo: Sebastian Kraemer: The Origins of Fatherhood: An Ancient Family Process. Fam Proc 30:377-392, 1991
    Não sei como é que a publicação de artigos se processa na sua área, mas na minha, um artigo científico passa por inúmeras provas de selecção: 1. Primeiro é submetido. 2. O Editor envia-o para 2-3 referees que os autores desconhecem. 3. Os referees fazem todas as críticas que entendem, espremendo ao máximo os autores, enviam ao Editor. 4. O Editor envia as questões para os autores para que se defendam, após o que envia as respostas aos referees. Estes voltam a fazer a avaliação e decidem se é de publicar ou não. Só então o Editor decide. Por tudo isto, é que eu tenho confiança nestes artigos. São os que leio habitualmente.
    Melhores cumprimentos.
    Aldina

  3. Num debate que se pretende construtivo e plural, agradecem-se os comentários a um texto a que não foram indiferentes, cujo teor (não querendo formular uma tese ou uma doutrina) nos interpela e questiona (com a colaboração da História e do que é conhecível da natureza humana com caraterísticas de permanência) sobre o passado, o presente e os futuros possíveis quanto à guerra e paz, devendo lutar-se para que prevaleça a paz, sem perder a esperança de que se possa erradicar a guerra.

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