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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

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   De 23 a 29 de junho de 2025

 

Foi há 80 anos! Em 1945, a 13 de maio, o Centro Nacional de Cultura foi fundado por Afonso Botelho, António Seabra e Gastão da Cunha Ferreira, vindos de uma peregrinação a Fátima.

 

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Passava uma semana sob o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Desde o primeiro momento, as ideias novas e a modernidade estiveram bem presentes no CNC. E o Centro tornou-se, no Largo de S. Roque, ponto de encontro pioneiro de jovens artistas, escritores, pessoas do teatro, defensores avant-la-lettre do meio ambiente e da fidelidade às raízes, com os olhos postos no futuro. Sarah Afonso foi a primeira mulher no Centro, graças à participação de Almada Negreiros. Este e Fernando Amado fizeram do tempo novo a regra e o princípio. E, sem cuidar das naturais vicissitudes de um grupo que ganhou direitos de alforria sonhando uma «Cidade Nova», notamos que depressa foi o desejo de ar fresco e de liberdade de espírito que prevaleceu neste grupo de jovens monárquicos que desejavam usufruir de uma necessária liberdade. Tudo começou logo em 1946 com um grupo de teatro que levou à cena “A Caixa de Pandora” com Fernando Amado, Ruy Cinatti, João Maria Bravo e Vasco Futscher Pereira. Houve uma rádio de curta duração, mas foi muito importante uma auspiciosa “Exposição de Arte Moderna” com Almada, António Dacosta, Eduardo Viana, Carlos Botelho, António Lino e Cândido Costa Pinto… Nesta primeira fase, o Centro andará com a casa às costas, sucessivamente na Rua da Horta Seca, na Rua do Ataíde e na Rua do Loreto 42-1º andar, até 1952, altura em que assenta armas e bagagens na Rua António Maria Cardoso, nº 68. Era presidente da direção João Camossa Saldanha. São aprovados os estatutos com Gonçalo Ribeiro Telles. Têm lugar cursos sobre a Saudade, com Afonso Botelho, a que se seguem conferências marcantes de Delfim Santos e Gabriel Marcel. Presidem aos destinos do CNC Adriano Vaz Pinto e António Seabra. Até que, a partir de 1957 a figura marcante passará a ser Francisco Sousa Tavares, que se afirma contra todo o conformismo. Foi ele quem primeiro definiu o Centro como humanista e um lugar de autonomia e de criação, de liberdade e de inteligência. E Gonçalo Ribeiro Telles ligou a revista “Cidade Nova” à natureza e à terra. Para a realização de sessões e conferências, à falta de cadeiras, usavam-se cestos de vime… Em 1954 o grupo de teatro leva à criação da Casa da Comédia, centrada no grupo Fernando Pessoa, com «O Marinheiro», que realiza em 1962 a memorável tournée no Brasil, onde encontrou Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Vinicius de Moraes e Cecília Meireles. Sousa Tavares e António Alçada Baptista marcam por essa altura decisivamente o CNC, num sentido personalista, democrático e constitucional. Lourdes de Castro faz com José Escada a sua primeira exposição organizada pelo Centro. No CNC reúnem-se os fundadores do jornal “57”, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho, Orlando Vitorino e António Quadros, num tempo em que também se ouve a «Heterodoxia» de Eduardo Lourenço. Dos debates monárquicos, bastante acesos, passa-se à ideia democrática, com a candidatura de Humberto Delgado (1958), o apoio ao Bispo do Porto, a reflexão sobre o “dever social dos cristãos”, em que pontua o facto de António Alçada Baptista ter comprado uma pequena livraria jurídica que se abalança a ganhar dimensão. A aventura da Livraria Moraes e do Círculo do Humanismo Cristão. O Concílio Vaticano II e o tema da abertura democrática põem o Centro no coração dos temas atuais e necessários. Em 1961 realizam-se as conferências de quinta-feira, sob impulso da nova presidente da direção, Helena Cidade Moura. São convidados como oradores o Padre Manuel Antunes, Joel Serrão, Virgínia Rau, Vitorino Magalhães Godinho, Ruy Belo, Adérito Sedas Nunes, David Mourão-Ferreira, Luís Francisco Rebelo. Alçada Baptista cria a partir de 1963 as revistas «O Tempo e o Modo» e «Concilum». «A ação começa na consciência. A consciência pela ação insere-se no tempo. Assim a consciência procurará o moo de influir no tempo. Por isso se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo» – proclama a fórmula de Pedro Tamen. João Bénard da Costa, Alberto Vaz da Silva e Nuno Bragança apontam caminhos novos na criação e na crítica literárias. De Agustina a Jorge de Sena há novos valores a considerar. Nasce a Resistência Cristã com Nuno de Bragança, José Pedro Pinto Leite e João Bénard da Costa. O início da Guerra de África e invasão de Goa suscitam reações contraditórias, mas a exigência de liberdade torna-se premente. Depois do fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores, pela atribuição do prémio a Luandino Vieira pelo romance “Luuanda”, Sophia de Mello Breyner assume a presidência e torna o Centro um lugar de resistência intelectual. «Perfeito é não quebrar / A imaginária linha // Exata é a recusa / E puro é o nojo». Henrique Martins de Carvalho exerce as funções de Presidente da Assembleia Geral, onde se manterá até 1974. Coincidindo com as crises académicas e com a presença marcante no CNC de Sophia de Mello Breyner e Francisco de Sousa Tavares, jovens universitários tornam-se presença assídua – Jorge Sampaio, António Reis, Jaime Gama, José Luís Nunes, Eduardo Prado Coelho, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Nuno Júdice, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra. Com a presidência de Francisco Lino Neto, realiza-se o 1º Encontro Nacional de Críticos de Arte. Contesta-se a guerra do Vietnam. José Manuel Galvão Teles preside ao Centro e Joana Lopes é membro da direção. É o marcelismo. Jorge de Sena vem falar. Na Sociedade Nacional de Belas Artes organiza-se o ciclo “Lusitânia, Quo Vadis?”. Há cargas policiais e detenções. Há dirigentes presos e o debate democrático é vivo e intenso, com Sousa Tavares a regressar à presidência. «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar» – diz Sophia numa vigília de cristãos na igreja de S. Domingos, e nada pode ficar como dantes. Em 1970, António Alçada Baptista e Nuno Teotónio Pereira trazem para o Centro a “Associação para a Liberdade da Cultura”, presidida por Pierre Emmanuel. Entre nós, sob a designação de Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias tem um papel muito importante, tendo sido constituída por António Alçada Baptista, Padre Manuel Antunes, S.J., João Bénard da Costa; Nuno de Bragança; José Cardoso Pires; José-Augusto França; João de Freitas Branco; Luís Filipe Lindley Cintra; Maria de Loures Belchior; João Pedro Miller Guerra; Mário Murteira; José Palla e Carmo; José Ribeiro dos Santos; Rui Grácio; João Salgueiro; Adérito Sedas Nunes; Joel Serrão e Nuno Teotónio Pereira. António Alçada Baptista (1971-72); José Cardoso Pires (1972-73); João de Freitas Branco (1973-74) assumem rotativamente a Presidência do Centro Nacional de Cultura, cabendo a João Bénard da Costa a função de Secretário Permanente (1970-74). É um momento de contradições e perplexidades – se Nuno Teotónio Pereira é preso, Veiga Simão, o novo Ministro da Educação, constitui uma Comissão de Cultura onde se encontram membros do CNC. Mas a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos também aqui funciona clandestinamente… Um dia, Frei Bento Domingues é convocado para a PIDE e diz que na rua só conhece o Centro Nacional de Cultura… É a democracia que começa a afirmar-se. A liberdade de imprensa é defendida como essencial. Há cursos livres sobre temas proibidos, realizam-se os jornais falados. Uma sessão com José Afonso é proibida e acaba em carga policial. Em 25 de Abril de 1974, chega a democracia. Sophia escreve. «Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial, inteiro e limpo, / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo». Francisco Sousa Tavares está em 25 de Abril de 1974 no Largo do Carmo, como sempre estivera, na primeira linha da defesa da liberdade. É o primeiro civil a falar publicamente. A legalização dos partidos políticos faz o CNC interrogar-se. José-Augusto França à frente dos destinos do Centro instala aqui o departamento de História de Arte da Universidade Nova – e permite a sobrevivência. José Régio inspira o novo tempo. «Davam grandes passeios aos domingos». Helena Vaz da Silva assume a presidência do CNC com a direção da “Raiz e Utopia” (1977-2002), plena de entusiasmo e de novíssimas ideias. Inicia-se uma nova fase de debates, de percursos, de mil projetos sobre o Património Cultural e sobre a presença portuguesa no mundo… António José Saraiva e Eduardo Lourenço fazem da liberdade de pensamento um exercício de crítica e de recusa de lugares comuns – a psicanálise mítica do destino português e «Os Filhos de Saturno» desenvolvem-se como sinais de controvérsia e diálogo. A educação, a ciência, a cultura, as artes são poderosos fatores mobilizadores. Jovens cidadãos sobre rodas, “Os Portugueses ao Encontro da sua História”, o património cultural como realidade viva… As bolsas de jovens criadores e criar lusofonia ligam-se ainda  à formação nos temas europeus, no turismo cultural e nos roteiros patrimoniais. “Os Caminhos de Fátima” constituem uma iniciativa no âmbito dos roteiros do turismo religiosos que o CNC tem coordenado, sob a inspiração de Gonçalo Ribeiro Telles. O Centro teve  ainda a responsabilidade das Jornadas Europeias do Património do Conselho da Europa e aqui nasceu e concretizou-se a Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea, assinada em 2005, ratificada e em vigor desde 2011… Guilherme d’Oliveira Martins (2002-2016) e Maria Calado (2016) assumiram a Presidência do CNC. A partir de 2012, aquando da realização do Congresso da Europa Nostra em Lisboa no Mosteiro dos Jerónimos, com a presença dos Príncipes das Astúrias, foi instituído com a Europa Nostra o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do Património Cultural, cuja lista de premiados é a seguinte: Claudio Magris (2013); Orhan Pamuk (2014); Jordi Savall (2015); Eduardo Lourenço e Jean Plantureux – Plantu (2016); Wim Wenders (2017); Bettany Hughes (2018); Fabiola Gianotti(2019); José Tolentino Mendonça (2020); Anne Teresa De Keersmaeker (2021); Oksana Lyniv (2022); Jorge Chaminé (2023) e Thomas Struth (2024). Em 2025 teve lugar a décima terceira edição do Disquiet, encontros internacionais organizados em parceria com a Dzanc Books do Michigan (EUA) com uma centena de escritores norte-americanos em diálogo com escritores portugueses. A iniciativa nasceu sob a inspiração da memória do poeta Alberto Lacerda, invocando o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa / Bernardo Soares. Ao celebrar oitenta anos de vida, o Centro Nacional de Cultura constitui, pela continuidade e pela presença marcante, um exemplo que merece evocação.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

4 comentários sobre “A VIDA DOS LIVROS

  1. Obrigada pela crónica. PARABÉNS AO CENTRO NACIONAL DE CULTURA.
    Apenas tenho uma grande mágoa:
    Sinto que o CNC aproveitou e bem os melhores, os cultos, os intelectuais.
    E o povo? Aquele que ia passando fome? Aquele que trabalhava duro de dia e de noite, todos os dias do ano, e não conseguia mesmo assim alimentar os filhos? ….
    Que me perdoem! Mas os intelectuais sabem muito, mas nem se apercebem dos fossos enormes entre a miséria do povo e a cultura escolhida. Seria preciso senti-la, herdá-la.
    E o povo tem a sua cultura, aquela que resultou da sua herança desde o início da nossa espécie humana. Temos tudo cá gravado, no genoma …no inconsciente como tão bem percebeu Carl Jung , “no nosso próprio sangue”. Mas, a maioria das vezes, o povo não consegue transmitir e se se atreve a querer transmitir, ninguém percebe, é como se falasse de um outro mundo.
    Terá sido aqui referido, por exemplo, o “filósofo” e escritor António Aleixo? “Eu não tenho vistas largas, nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas lições de filosofia”?
    Nem nesta triste situação global em que nos encontramos, as pessoas abrem os olhos.
    Peço desculpa, sei que não merecem este palavreado, mas eu tenho que o gritar o mais alto possível antes de morrer.
    Mais uma vez, obrigada pela crónica e por existirem.
    Bem hajam!

    1. Saudamos muito especialmente o comentário segundo o qual além da função intelectual não podemos descurar as questões da justiça social e da equidade! Assim pautamos a nossa ação de 80 anos de vida!

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