
De 18 a 24 de agosto de 2025
Acaba de ser publicado “Montaigne ou a Vida Escrita” de Eduardo Lourenço (Gradiva, 2025) com um dos textos mais luminosos escritos sobre Michel de Montaigne e a invenção da literatura moderna.

Montaigne foi para Eduardo Lourenço uma referência permanente. Se foi Sílvio Lima que abriu ao jovem estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a avenida do método ensaístico, foi sem dúvida a leitura de Montaigne que lhe permitiu encontrar a sua própria originalidade, no descobrimento do Homem como se tratasse da sua própria América, no caso inesperado de Colombo. Partindo do desconhecido na ordem geográfica tratar-se-ia de interrogar o grande continente bem mais improvável correspondente a nós-mesmos. Afinal, nenhuma terra, por muito misteriosa que seja, nos reserva mais enigmas do que a pessoa humana. É a interrogação sobre o sentido da vida que está em causa, a partir do entendimento da complexidade do tempo e da História. E o milagre de Montaigne é que ele nos fala de si sem se considerar como centro do mundo, mas como um dos intervenientes no mundo da vida, convertendo (como diria Jean Cocteau) as suas fraquezas em sabedoria do mundo. Assim, podemos entender a obra de Eduardo Lourenço, ao longo da vida, fazendo da literatura, das artes e dos acontecimentos do mundo os temas das suas constantes interrogações.
O que fascina o escritor é essa originalidade que torna Montaigne pioneiro do pensamento moderno, desde a consideração de um horizonte de exigência utópica (não como ilusão, mas como responsabilidade) até à consideração da singularidade cartesiana, sem esquecer o idealismo platónico e o realismo aristotélico. São a liberdade de pensamento e o universalismo da dignidade humana que assim se desenham numa companhia onde se encontram Cícero e Séneca. Mais do que trazer uma nova ordem no conhecimento, Montaigne muda a perspetiva de análise, tornando o olhar um modo aberto e desarmado de nos colocarmos perante o mundo. E assim o autor dos Ensaios torna-se moderno, baseando-se na singularidade. Original cultor da idade da dúvida, o interrogador de “Que sais-je?” não abandona a procura da verdade, não como émulo de Platão ou Aristóteles, mas como caminhante da sua própria via. E assim o seu propósito torna-se des-construir, examinando a realidade como se fosse a primeira vez, para encarar a verdade e o erro, o verosímil e o inverosímil, de modo que a representação não se constitua num constrangimento. Montaigne inventa, deste modo, a Literatura, no sentido mais essencial, com uma contrapartida crítica. Ninguém antes dele tinha podido dar corpo ao irreal, tirando consequências do que Ovídio consagrara nas “Metamorfoses”. E, como no caso de D. Quixote, este começa por desejar que a realidade se conforme com o texto, onde a vida ideal é vivida. No entanto, é esta contradição que leva o “cavaleiro da triste figura” a rebelar-se no final da sua aventura, desejando regressar à natureza de si-próprio. E Montaigne compreende que nenhuma realidade é mais ficcionável do que a da nossa própria vida. Por isso, os Ensaios podem ser encarados como um não-livro, o que leva muitos dos seus leitores a considerar o seu autor como o cético perfeito. No entanto, tal constitui para Eduardo Lourenço uma injustiça e um contrassenso.
Em sentido literal, o autor dos Ensaios toma consciência de ser nada, o que o aproxima dos grandes místicos, como S. João da Cruz. A um tempo, temos assim em Montaigne o reconhecimento da coexistência da graça divina com o “ser para a morte”, inerentes ao género humano. Então olha para a vida sem medo, mas também sem ilusão. Basta, assim, abrir os Ensaios em qualquer das suas páginas para partilhar um sentimento libertador, igual ao do momento em que se acaba de nascer. Ora, Montaigne não sabendo quem era verdadeiramente, pôs-se a pensar e a escrever para se descobrir – e poucos homens antes dele puderam chegar a tal objetivo com tanta lucidez, sem recorrer a uma Musa.
Os textos de Eduardo Lourenço que constituem este volume procuram revelar como o género ensaístico procura seguir a lição de Montaigne, no sentido de nos descobrirmos a nós mesmos, num mundo controverso e difícil. E se Montaigne surge no mundo do pensamento como um fator bem evidente de valorização da singularidade, junta-se-lhe Luís de Camões, na sua dimensão épica, como um contraponto de relevo. Ambos se revelam como referências pioneiras no panorama literário europeu, ao assumirem, em termos novos, a herança clássica, na linha de Homero de Virgílio.
“Uma Epopeia Singular” constitui a análise de um acontecimento histórico inédito, que corresponde ao início da primeira globalização ou era gâmica, na expressão consagrada de Toynbee. Em Camões, o mundo dos deuses corresponde ao mundo dos homens visto às avessas, enquanto morada onde se afirmam os sonhos duma humanidade que desperta pela primeira vez como conjunto. E assim desenvolve-se uma nova alegoria, envolvendo os maravilhosos pagão e cristão, numa curiosa simbiose, em que um novo Paraíso, com cores renascentistas, coloca o amor como protagonista. Assim, os novos Argonautas realizam uma viagem real e iniciática que abre o Oriente ao Ocidente, deixando entrever o segredo da natureza numa nova Humanidade simbolizada na Ilha dos Amores, através de núpcias profanas e divinas da glória e do desejo. Assim como outrora em Veneza o Bucentauro representava o casamento da cidade e do mar, agora os portugueses recebiam essa herança, repetida em núpcias sublimes. Nesse ponto Os Lusíadas celebram a consumação de um novo tempo universalista, com paralelo em Montaigne, no mundo das ideias. Basta lembrarmo-nos que os Ensaios de Montaigne são dados à estampa na década seguinte à publicação dos Lusíadas.
Num tempo em que as tensões religiosas se acumulavam no velho continente, a abertura de horizontes que sentimos no poema de Camões constitui um sinal de que o espírito renascentista se desenvolve com a participação da experiência portuguesa. Deste modo, a mitologia dos Lusíadas não é artifício ou ornamento, como afirma Eduardo Lourenço, mas a presença ainda todo-poderosa de um modelo que poderia ser utilizado para que os mitos modernos fossem comparados com as glórias da História grega ou romana, desde o fascínio de Circe às lágrimas de Dido. E, não por acaso, como que evocando as origens de Moisés no rio Nilo, temos a mitologia ligada ao suposto salvamento dos Lusíadas no naufrágio na embocadura do Mekong. E se o tema do Livro é marcante para Montaigne, o certo é que o poema que celebra a nação torna-se um verdadeiro símbolo coletivo, fazendo projetar no mundo contemporâneo os ecos do mundo antigo numa convergência singular.
Montaigne e Camões associam-se de um modo quase surpreendente, o que na leitura destes ensaios de Eduardo Lourenço se torna natural. Estamos no coração do Renascimento, no ponto em que a um tempo se descobre o mundo, da América à Índia, bem como se procura o íntimo do mundo interior de cada um de nós – e assim o descobrimento liga a descoberta da Humanidade e a procura do Homem. Deste modo, o ensaísta, ao ser recebido na Universidade de Bolonha, Alma Mater da Europa moderna, pôs em evidência a necessidade de ligarmos o nosso tempo ao tempo dos outros, para nos compreendermos melhor universalmente, em nome de uma dignidade humana que deve unir-nos no respeito mútuo, articulando a revisitação do inferno da condição humana à necessidade de melhor contemplarmos o sol e as estrelas. E cabe perguntar: Onde estamos afinal? E como poderemos tirar consequências afim de conservar intacta a capacidade de invenção e de nos renovarmos? A reflexão de Eduardo Lourenço ajuda-nos.
Guilherme d’Oliveira Martins
Obrigada. Adorei mesmo este texto! “Onde estamos afinal?”
Tal como Sócrates: “Só sei que nada sei”.