A viagem pode tornar-se sem sentido e a existência um equívoco

A preferência pelo imediato e pelo descartável identifica as sociedades em que a leitura e o pensamento crítico não existem. Em rigor, uma sociedade que não lê não consegue interpretar nem se sabe desafiar e de si mesma não evolui.
A ideia de que tudo deve ser fácil, descomplicado e instantâneo, contribui para a exclusão dos estímulos num contexto de expressões culturais mais exigentes, gerando cidadãos não preparados para a complexidade.
Vive-se no espetáculo, no entretenimento e na capacidade de impactar; vive-se num mundo em que o afeto só é verdade se exposto. A descoberta, as aprendizagens, nivelam-se por padrões de mediocridade, e não se reconhecem sequer as experiências formativas de qualidade.
E tudo isto produz gentes submissas, miméticas, intoxicadas por uma teia que não detestam. Gentes que caminham de trela curta num show de obediências ao sistema. Gentes que se comportam e se contêm como escravos na relativização completa do conceito de verdade.
Nos dias de hoje, cada vez mais ausente a liberdade, cada vez mais presente o jogo infantil que se propõe ganhar todos os jogos vãos em torno dos aparatos das imagens.
E eis que a viagem pode tornar-se sem sentido e a existência um equívoco quando não se distingue o risco de morte do aceitar a morte.
E tudo isto parece importar pouco.
E contra tudo isto não existe um manual.
Talvez um distanciamento estético mantenha este mundo à distância, fazendo com que tudo nos pareça tão bestialmente estranho, tão não-natural, que por isso mesmo tudo isto é passível de ser transformado.
Teresa Bracinha Vieira
Alguma novidade vai emergir. A boa notícia é que as nossas tradições mudaram no passado e podem voltar a mudar.
Grata pelo seu comentário.
Também tenho consciência do que afirma.
Dificilmente posso dizer quão grande é o compromisso de todos nós quando tudo é passível de ser transformado. Mas quero crer que a ideia é sempre a grande oportunidade e sobretudo nos tempos difíceis.
Boas leituras.