225. URGÊNCIAS E ABANDONOS
No imediatismo da agitação dos nossos dias, sobressai a urgência de resposta de vivermos agarrados à espera que o telemóvel toque ou nos dê um sinal de retorno às nossas perguntas, comentários, opiniões, fotos ou vídeos recebidos, o que é acelerado pela velocidade instantânea das novas tecnologias, com manifestações na internet e toda a espécie de redes sociais.
Há pessoas, de todas as idades, cuja dependência se traduz em dezenas de mensagens diárias, evoluindo proporcionalmente para o número das centenas e milhares em função da celeridade e urgência das respostas obtidas, o que é agudizado pelo reenvio de correio eletrónico desconhecido e não consentido pelo remetente original obrigando, em dado momento, a uma limpeza que inviabilize um vagaroso funcionamento ou bloqueio dos aparelhos.
Por oposição a este imediatismo, há as pessoas que desaparecem sem explicação, sem deixar rasto, tantas vezes sem um período intermédio ou um intermediário, evitando voluntariamente o outro, não querendo confrontar-se com interpelações alheias, como um mero “porquê agora?”, fenómeno que os anglo-saxónicos apelidam de ghosting.
Este abandono sem aviso, pelo qual alguém vai estar ausente, por vários motivos, pode ser uma fuga de intolerância à frustração, de ressentimento, de despedida e falta de coragem para enfrentar a situação, não dando hipótese ao outro do contraditório, podendo fazê-lo sentir-se anulado e vexado.
E há os que querem comunicar, contactar, ser compreendidos sem o conseguir, por vezes pessoas altamente intelectualizadas ou complicadas, com gostos e sensibilidades fora do comum, ficando deprimidas e abandonadas na sua solidão existencial.
Este viver entre o real e o virtual, a urgência do imediatismo e o abandono sem sinal, a dúvida ou interrogação da omissão de resposta imediata e o desaparecer da relação sem vestígio, são sempre, de algum modo, formas da nossa intolerância ao falhanço e tentativas de subsequente compensação ou substituição, sendo que, por vezes, conseguimos que as nossas despedidas e ausência de respostas sejam em benefício ou favor dos outros.
12.09.25
Joaquim M. M. Patrício