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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Fotograma de D. Camilo


Alguém quer ser santo?


Vale!
era a saudação latina: Saúde, passa bem, passai bem! Aliás, a própria palavra saudação tem também a ver com saúde e com salvação (salus, salutis). Saudar vem do latim: salutem dare (dar, desejar saúde). Ainda se diz nas aldeias: ‘negar a salvação a alguém’, com o sentido de recusar-se a cumprimentar uma pessoa. Saudade tem aqui igualmente o seu étimo. Veja-se, por exemplo, a expressão: mandar muitas  saudades. A saudade é aquele sentimento de solidão que tem na sua base a falta da pessoa querida. Ter saudades e enviar saudades é aquele desejo de que quem partiu e anda longe, esteja onde estiver, passe bem… Por sua vez, saúde refere-se sempre àquela situação em que o ser humano na sua totalidade está bem. A saúde tem a ver com o todo holisticamente considerado, numa situação de integração e equilíbrio harmoniosos: saúde somática, saúde psíquica, saúde social, saúde ecológica, saúde espiritual, implicando, portanto, uma relação sã consigo, com os outros, com a natureza, com Deus…

Tudo isto por causa do dia 1 de Novembro. É possível que muitos portugueses pensem que esse dia é feriado nacional por causa dos mortos. Mas não é verdade: é feriado nacional por causa da celebração da Festa de Todos os Santos.

Aí está algo que praticamente ninguém que alguma vez tenha pensado nisso (mas quantos pensaram?) quereria ser: santo. Até porque os santos com os quais habitualmente contactamos julgamos que são aquelas figuras geralmente pouco belas, torcidas e até por vezes ridículas que vemos em muitos altares das igrejas e que são levadas a “passear” pelas ruas uma vez por ano nas procissões das romarias. Mesmo quando nos reportamos àqueles homens e àquelas mulheres reais de carne e osso, que aquelas figuras quereriam representar, vemo-los a maior parte das vezes como beatos, tristes, a bichanar orações, desagradados com a vida, deprimidos, ascetas a quem não é permitido apreciar as coisas boas e belas da existência…

No entanto, se pensássemos bem, é mesmo isso que queremos ser: santos. Porque santo, também etimologicamente, tem a ver com saúde. E o que é que nós fazemos sem saúde? Santo e são têm a mesma raiz. E isso tanto nas línguas latinas como nas anglo-saxónicas — dizemos: aquele homem está são e também dizemos São João; em inglês: holy (santo), health (saúde), em conexão com the whole (o todo harmónico já apontado)… Há sempre essa conexão entre saúde, santidade, salvação e totalidade harmónica. Só estamos sãos, se tudo em nós estiver bem: uma dor da alma ou uma simples unha encravada colocam-nos em desequilíbrio. Ser santo significa, repito, harmonia toda: estar de bem consigo, com os outros, com o mundo, com a natureza, com o divino… Assim, por exemplo, quem despreza o mundo não é santo. O desequilíbrio é o contrário da santidade, que consiste precisamente na plenitude harmónica e expansiva.

De qualquer modo, nos dias 1 e 2 de Novembro, o que, de facto, lembramos mais são os mortos. Nas nossas sociedades, urbanas, científicas e técnicas, onde o que mais se valoriza é o aparecer, o parecer, o dinheiro, a eficácia, a juventude, o light, o ter, o poder, o êxito, e onde, por isso mesmo, a morte é tabu e sobre a morte se mente às crianças e mentimos a nós mesmos e uns aos outros, permite-se até certo ponto que os mortos, os defuntos, surjam dois dias por ano no convívio dos vivos. Os cemitérios enchem-se, embora cada vez menos. Aí, há uma lembrança, uma recordação. Talvez se erga, sem palavras, uma prece. E surge uma inquietação: o que é o Homem? O padre António Vieira respondeu: “pó levantado”. Com isso, ele queria apelar à humildade, aquela humildade que não anula a dignidade. Pelo contrário: o ser humano humilde é o ser humano (homem ou mulher) bom, digno e verdadeiro. E precisamente a bondade, a dignidade e a verdade no combate pela justiça, a fraternidade e a paz, pertencem ao núcleo do que se chama santo, também em ligação constituinte com a esperança: no meio das dúvidas, perplexidades, injustiças e horrores, a esperança da plenitude da vida eterna em Deus…


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
1 de Novembro de 2025

2 comentários sobre “CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  1. Obrigada Senhor Padre e Professor Anselmo Borges!
    “O padre António Vieira respondeu: “pó levantado”. Com isso, ele queria apelar à humildade, aquela humildade que não anula a dignidade. Pelo contrário: o ser humano humilde é o ser humano (homem ou mulher) bom, digno e verdadeiro.” O “pó levantado” me conduz à terra levantada e me lembra os escritos sobre a Natureza de C.G. Jung que possibilitaram o livro “A Terra Tem Alma”. Essa perspectiva diverge da visão puramente científica da natureza e sugere uma dimensão espiritual e psicológica, o que contribuiria para a Unidade essencial do Mundo e de nós mesmos/as. Referindo-se a Carl Gustav Jung, o Papa Francisco afirmou: “Alguém disse que o caminhar do ser humano, a vida humana, é fazer um cosmos do caos”. Vatican news, 2023.

  2. Hoje, 5 de Novembro de 2025-11-05
    Logo na madrugada
    A atmosfera está brava!
    Os trovões quase estremecem a casa
    Os relâmpagos iluminam completamente
    O mundo à minha volta
    A chuva e o vento
    A tudo dão movimento.
    Tal e qual
    Está a minha alma!
    Ainda que em breve
    Me integre na Terra
    Ela sobreviverá
    Na alma de
    Todos os homens e mulheres
    Pobres
    Oprimidos
    Excluídos
    Sofredores
    Emigrantes
    Que me seguirão,
    Tal e qual
    Como tenho
    Todos os homens e mulheres
    Pobres
    Oprimidos
    Excluídos
    Sofredores
    Emigrantes
    A persistir
    Desde o Paleolítico
    No meu Inconsciente
    A à Consciência vir.
    Que crentes, santos ou ateus
    Larguem durante
    Um segundo que seja
    As moedas, as armas, a ambição,
    A mentira, o seu carácter egocêntrico
    E façam silêncio…
    Deus (para mim, O que nos transcende) existe!

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