
241. TRABALHO, NÃO TER NADA PARA FAZER E NÃO FAZER NADA
O trabalho, se não for excessivo, é preferível à ociosidade. Preenche uma boa parte do dia sem termos de decidir sobre o que havemos de fazer, sendo um preventivo e um alívio para o aborrecimento e o tédio. Dá oportunidades de sucesso e abre as portas à ambição. E há nele um elemento construtivo com uma intenção que ganhou forma no seu estado final, que o distingue da desordem relativa inicial, gerando um prazer ou satisfação pelo dever cumprido.
Quanto mais monótono, rotineiro e excessivo, mais lembra o mito de Sísifo que tinha recebido de Zeus o castigo de empurrar uma pedra até ao topo de uma montanha e que, quando chegava ao cimo, a pedra fugia-lhe das mãos e rebolava montanha abaixo, recomeçando de novo. Só que, diz-nos a experiência, para muitos de nós, o que recebemos de Zeus não foi uma condenação, mas sim um favor, dado que, nesta interpretação, a vida sem trabalho não faz sentido, não servindo para nada. E há quem queira apenas trabalhar e abomine férias, tendo o trabalho como mecanismo de defesa e fuga para a frente.
O que nos questiona sobre o não ter nada para fazer e o não fazer nada que, na sua aparente indiferença, nos pode conduzir à conclusão de que há diferença entre não fazer nada e não ter nada para fazer.
Intui-se que o ter trabalhado (anteriormente) pressupõe ter-se tido algo de útil e necessário para fazer, enquanto o não ter nada para fazer pressupõe o prazer de ter tempo livre para não fazer nada depois de se ter trabalhado, sob a forma de uma espécie de compensação, em termos materiais e espirituais. O trabalho dignifica antecipadamente o subsequente não ter nada para fazer, o que não sucede com o não fazer nada. Enquanto no não ter nada para fazer, após se ter trabalhado, há usualmente contentamento, satisfação, gozo ou prazer tido como merecido e reconhecido como gratificante, no não fazer nada pode haver frustração ou sofrimento, um potencial maior para o aborrecimento e o tédio, mas também uma possibilidade de autoconhecimento e descoberta de novos interesses.
De todo o modo, seguindo este raciocínio, não fazer nada (ou ter poder em não fazer nada) é o mais difícil, exige mais energia para o superar, por maioria de razão quando não se compreende o pensamento de Pascal segundo o qual: “Toda a infelicidade dos homens tem por única origem não saberem ficar sossegadamente nos seus aposentos”.
02.01.26
Joaquim M. M. Patrício
Ex.mo Senhor Doutor
Joaquim Patrício
Obrigada pela sua crónica, que li com atenção.
Eu, mulher beirã, com valores morais e ecológicos, que trabalho no duro há 70 anos,
gosto de justiça social, de disciplina e de homens trabalhadores, firmes e sem experiência política. Também os da minha terra não a tinham.
Aqui deixo, apenas o início de um poema que fiz há alguns anos:
O vento arisco
As ondas a levantar
E os homens no mar
No seu peculiar grito
A última sílaba
A tender para infinito
As mulheres aflitas
– Nossa Senhora nos acuda!
….SPA, 2023
Grato pela atenção prestada à leitura da crónica e pelo poema.
Gostei especialmente da ideia de que o trabalho pode dar sentido ao descanso, mas que o “não fazer nada” também pode ser um espaço desconfortável e, ao mesmo tempo, revelador.
S
Grato pela atenção prestada à leitura desta crónica.
Continuação de boas leituras.