250. SÓ, SOZINHO, SOLITÁRIO, SOLITUDINÁRIO E SILÊNCIO
Não é a mesma coisa, nem uma filosofia de solitários, falar das diferenças contidas no título deste texto.
Embora o ser humano dependa de cooperação, sendo dotado, por si e pela essência das coisas, dos meios para a ter como indispensável, a verdade é que, cada um de nós, no fundo, é um pouco só, sozinho, solitário e solitudinário.
É subtil a diferença, como que de degrau em degrau, de patamar em patamar.
Estar só é um estado natural, um espaço vazio que convida à introspeção.
Estar sozinho é o que se sente quando é presença a ausência do outro.
Ser solitário é ser incompreendido, um desencontro existencial, com ou sem companhia.
Ser solitudinário é uma escolha deliberada associada à alegria de estar só. E se na vida há o primaverar, veranear, outonar e invernar, em qualquer destas situações também há o estar só, sozinho, solitário e solitudinário, mesmo que se entenda, quanto a eles, como preferencialmente mais adequado o nosso outonar e invernar (mais o invernar, por princípio), dado estarem mais bem posicionados, nessa fase da vida, para agarrar mais de perto tal factualidade.
E se qualquer destes estados se pode alterar, tornando-se libertação, refúgio, retiro, inspiração, meditação ou floração de algo novo, também valorizam o silêncio com o autoconhecimento, contemplação, criatividade, meditação, desejo e procura de equilíbrio, aprendendo a ouvi-lo e a respeitar a nossa própria companhia.
Se é no silêncio que as verdades sussurram, indicia-se ainda, paradoxalmente, ser através dele que estamos sempre em busca de uma sensação de pertença, procurando o outro, quer estando só, sozinho, solitário ou solitudinário, porque elementos constitutivos e parte integrante de um todo mais amplo com que interagimos.
O ideal é qualquer deles poder ser um fator relevante de sanidade, socialização e de grande terapia, como quando, por exemplo, em plena jardinagem se interage apenas com o jardim e as suas árvores, vegetação e flores, se passeia ou conversa com animais de estimação, se fala com quem nos deixou e partiu ou se dá ânimo à imaginação pela leitura, sob pena de sermos algo perdido no vácuo do cosmos que ignora a nossa presença.
06.03.26
Joaquim M. M. Patrício
Ex.mo Senhor Doutor Joaquim MM Patrício.
Obrigada por toda a sua crónica. Estou inteiramente de acordo consigo. A fim de não “sermos algo perdido no vácuo do cosmos que ignora a nossa presença”, temos que abraçar as nossas raízes cósmicas e construir a civilização de acordo com elas. É necessário, que se arranquem antes, algumas ervas nocivas. Neste momento, estamos (a meu ver), a viver um divórcio entre a maioria dos seres e o cosmos.
Grato pela atenção e pelas palavras.
Boas leituras.
Gosto da solidão, da melancolia dos passeios solitários pelas florestas. Gosto de ler e de ouvir música quando estou só. Penso que foi Stefan Zweig quem disse: “Punição divina ou fatalidade sociológica, a solidão, quando nos é imposta, torna-se uma provação terrível. Mas, quando ela é desejada, perde o seu aspecto funesto e transforma-se numa estranha doçura. Favorece o encontro com si mesmo, a experiência da meditação, a busca da felicidade e da plenitude”.
Há um não vazio na solitude.
Muito obrigada.
Gostei muito deste texto e da forma como distingue estados que muitas vezes confundimos. Fez-me pensar em como estar só pode ser tão diferente de sentir solidão, e que pode ser até algo positivo quando é escolha. De certa forma, e talvez ainda influenciada pelo recente Dia Mundial da Poesia, a ligação ao silêncio e ao autoconhecimento lembrou-me o olhar de Alberto Caeiro, onde estar só é também uma forma de estar inteiro 🙂
S
Bem haja pela leitura, comentário e atenção sentida nas palavras expressas.
Os melhores desejos de boas leituras.