Águas correntes de regatos imensos, que não estão no corpo mas na alma e desaguam sempre noutro rio até chegarem àquele a quem os Antigos chamavam Letes…
Mário Botas
Formas triunfam da fluidez e desencadeiam relações reveladoras, vontades próprias. Formas que são afectos e apetites e jogos de deus-criança. Formas que medem mundos interiores como os destinos do questionar, mas guardam-se em opacidades opalinas que desafiam rumos e identidades. Assim o meu atrevimento à compreensão de Mário Botas, um dos mais espantosos pintores do sec.XX.
Mário Botas reconhece-se como “um pintor do lado da escrita”, confessando mesmo:
O que pinto gosta de se encontrar com as palavras, sobretudo com as palavras dos outros. Raramente parto de um texto para a imagem, mas quase sempre esta precede aquele
Sempre vi, na obra de Mário Botas, uma lança visionária aliada a uma outra, irreversível no levar-lhe a vida por esse doloroso confessar que, a morte jovem, deve ser enfrentada com a arrogância romântica e lúcida tanto, tanto, quanto tendo por fundo um Nada ou uma insensata Criação.
Diante da brancura do papel vê Mário Botas a luxúria da beleza e surge-nos que a figura da morte seja feminina na sua pintura e por ela se deslumbrará também.
Em 1978 busca este jovem médico em Nova Iorque o tratamento que o poderia salvar. Nesse mesmo ano expõe na Galeria Martin Summers bem como em The Drawing Center.
Pelos dias que correm, o desejo de afirmar a sua presença, vai igualmente antecipando a tragédia, nunca se afastando das urgentes preferências de literaturas como Borges, Blake, Cervantes, Pessoa, Eugénio de Andrade, entre outros. A relação entre o mítico e o histórico, o seguir o seu mestre Paul Klee, o saber desde os 24 anos que sofria de leucemia, irá fazê-lo iniciar o despedir-se das manhãs e das madrugadas e é sob o signo de uma urgência prioritária que se coloca toda a sua obra.
O artista vai agindo como arqueólogo da alma, plano a plano, sob o seu próprio engenho, que o guia às revelações que desafiam qualquer lei. E tudo lhe vai pertencendo em idealidade, obsessão e insolentes êxtases, genes caprichosos na sua solidão frente às estrelas ou à morte.
Nenhuma redenção ou futuro lhe é concedido, assim no pássaro, escrevi com os olhos
«Toi, qui sur le néant en sais plus que les morts»
Mallarmé
Inconformada, sempre inconformada recordarei Mário Botas e o quanto sempre que cada pilar bascula, os mundos desmoronam
Teresa Vieira
Sec XXI (sob os vários e densos véus)



