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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

“Os Domingos” e o Mistério da Fé

«Os Domingos» (2025) é um filme de Alauda Ruiz de Azúa, vencedor da Concha de Ouro do Festival de San Sebastián e do Goya para o melhor filme espanhol. O tema é o de uma adolescente confrontada com a vocação religiosa, em conflito com o meio familiar.
 

Pedro Mexia analisou a situação na sua crónica habitual no jornal “Expresso” (17.4.26), relacionando este filme com o tratamento de temas religiosos na cinematografia ao longo dos tempos, e agora perante uma circunstância em que o secularismo tem um especial significado, não sendo a fé um assunto habitual no cinema. A autora do filme e do argumento não tem um envolvimento religioso, preferindo tratar de um problema humano, que lhe chegou através do conhecimento de um testemunho pessoal que conheceu. De qualquer modo, há uma abordagem muito séria e rigorosa da questão, usando uma linguagem cinematográfica muito correta e depurada, com a utilização de um argumento sem cedências à facilidade, que procura elencar as diversas perspetivas possíveis em presença – sem caricaturar a situação, nem simplificar as opções. Num tema sem dúvida difícil e num panorama em que o tratamento dos temas religiosos é hoje pouco frequente, singulariza-se a abordagem do drama existencial na sua complexidade. Dir-se-ia, seguindo S. Tomás de Aquino e Pascal, que cada um de nós tem um caminho a percorrer, sempre diferente e ditado pela própria atitude pessoal. Em paralelo e diversamente com autores como Georges Bernanos, Graham Greene, François Mauriac ou David Lodge, o tema e a personagem principal Ainara (magnificamente representada pela estreante Bianca Soroa) apresentam alguém cuja personalidade se vai revelando ao longo da narrativa de modo surpreendente. Muitas das suas dúvidas e hesitações vão-se manifestando, até que se exprimem plenamente numa determinação singular. Como diz Pedro Mexia: “A questão da fé até podia ser secundarizada. Só não é porque a cineasta compreendeu que a fé se tornou incompreensível para os não-cristãos e incomodativa para os cristãos alheados (…) Ainara tem uma fé incomparável na sua intensidade à dos outros membros da família”. Trata-se de uma vivência interior, distinta de qualquer intenção confessional. É uma silenciosa e firme determinação que agita aqueles que com ela lidam. E há um momento em que o diálogo com a transcendência ocorre, apenas como o dom que a superiora refere no difícil diálogo com o pai e a tia.

Mas a cineasta não toma posição, para além da descrição objetiva de um acontecimento e de uma decisão. E como diz ainda Pedro Mexia, “Os Domingos” joga em dois tabuleiros: ainda há uma Espanha cristã, bastante ultra, “mas quem fica mais incomodado com um catolicismo forte (tão forte que pode levar ao abandono do mundo) são os católicos desligados. Daí que o filme trate Ainara como uma figura inquietante, sobretudo para a família. Inquietante não porque acredita, mas porque joga a sua vida seguindo aquilo em que acredita”. Eis por que razão a cineasta trata dos temas da convicção e da vontade, num sociedade demasiado presa à utilidade estrita, como se ilustra na perplexidade do pai, que aceita a escolha da filha, talvez também condicionado pelas dificuldades que atravessa. Em parte, a escolha da filha poderia até facilitar-lhe a vida. Pelo contrário, a tia, Maité, mais próxima de Ainara pela situação familiar, faltando a mãe, distancia-se da sobrinha, pondo apenas sobre a mesa a pura racionalidade e o interesse. E é neste ponto que Alauda Ruiz de Azúa se revela uma grande realizadora, ao dominar a narrativa, e ao levar à letra a ideia de que “o acontecimento é um verdadeiro mestre interior”. Sem ter necessidade de ir a Tertuliano e à sua fórmula “credo quia absurdum”, tantas vezes desenvolvida por Greene, ele que adotara no momento da conversão o nome de Tomé, a cineasta conta, aliás, a estória a partir dos seus elementos paradoxais, numa procura de argumentos para dissuadir Ainara, que se traduzem no confronto entre argumentos que não se encontram entre si.

E a morte da avó vai abrir caminho ao desatar do imbrincado novelo revelado a propósito da herança da família. Num momento de tensão tudo se precipita. Vem à lembrança a afirmação que tem a ver com um momento crucial da Páscoa de Jesus Cristo: “o meu reino não é deste mundo”. E o filme “questiona se os votos implicam uma eliminação ou uma sublimação da personalidade, nomeadamente da sexualidade” – como nota ainda Pedro Mexia. Todos os fatores possíveis se encontram e se questionam. E mostram “que uma freira jovem é uma rapariga antes de ser uma freira, uma rapariga que se transformou por causa de uma escolha, ou que escolheu por causa de uma transformação”… E neste ponto chegamos a uma situação limite, como encontramos noutros autores que partem de uma opção de fé. Mas aqui a transformação concretiza-se não por haver uma fé primordial, mas por haver uma fé como consequência… A inteligência da autora, como cineasta que marca pelo argumento, pela sensibilidade e pelo domínio técnico, permite a definição de um caminho que não pode deixar indiferente o espectador.  


A VIDA DOS LIVROS
, por Guilherme d’Oliveira Martins
Semana de 27 de abril a 3 de maio de 2026
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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