Antes mesmo de se definir quem se visa com o medo, tenta-se projetar, vivendo por antecipação, algum tipo de luto fingido daqueles que se definem como desnecessários à sociedade.
Neste contexto, vale a pena esclarecer que os mais propensos à submissão pelo temor são aqueles que aceitam, de imediato, perder algo, como a liberdade ou os valores, que passam a constituir um mal menor face à segurança.
Por aqui, por este caminho, vai-se aceitando receber ordens que impliquem desfrutar de alguma realidade minimamente prazerosa.
E se estes que aceitam com tranquilidade esta situação — tidos como os mais desprezíveis entre várias hierarquias, são mesmo, muitas vezes, aqueles que instituem o próprio medo e que subservientemente executam ordens como drones, não vivendo nem sucumbindo ao que sempre os deixou pregados ao chão — estes, dizíamos, nunca celebram a coragem dos que nos deram a todos força nos momentos mais terríveis, e essa característica é a maior cedência à não vida.
E surge então uma medonha força: a força da indiferença.
Esta força não nos protege de nenhum horror, mas, de certo modo, anula o medo, pois constitui um vazio emocional que se deixa colmatar por qualquer barbaridade.
Mas que se alerte sempre o bastante no centro de todas as clareiras!
O que tem estado na origem profunda do nosso desejo é o fantástico encontro com o desconhecido, para que se reencontre aquilo a que importa nunca renunciar, como é o caso do grandioso tesouro da nossa intimidade coletiva:
e esta elevada riqueza nunca será vítima se o elo for a comunicação.

Teresa Bracinha Vieira