auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

A Vida dos Livros

“Cartoons – 1969-1992”

João Abel Manta (1928-2026) é uma das grandes referências do cartoon no panorama europeu. “Cartoons – 1969-1992” (Tinta da China) é um repositório fundamental, no qual podemos encontrar verdadeiras preciosidades de uma obra que permite seguir a história portuguesa, a transição e a institucionalização da democracia.

Trata-se de um conjunto muito representativo da produção de João Abel num momento decisivo da sociedade portuguesa. Com o marcelismo houve uma abertura tímida, logo contrariada, mas o artista soube aproveitar esse momento para apresentar a sua leitura, no limite da audácia, tornando-se um comentador oportuno do que ia acontecendo. O arquiteto já com nome na praça, filho de dois grandes artistas, tornou-se caricaturista, com um traço próprio inconfundível. Desde a revista “Almanaque” (1959-61) até ao “JL” afirmou-se como um ilustrador originalíssimo, que não pôde deixar indiferente o público, perturbando a censura. Nas deliciosas páginas do “Almanaque” vemos como a caricatura podia fazer as vezes da crítica literária, com humor originalíssimo. O “Dinossauro Excelentíssimo” de José Cardoso Pires (1972) é um exemplo marcante. A obra causou uma verdadeira revolução na opinião pública. A parábola satírica no Reino do Mexilhão trazia para a ribalta, implicitamente, a figura do Presidente do Conselho. E uma intervenção desastrada de um deputado do regime na Assembleia Nacional impediu (afortunadamente) que a censura fosse a tempo para apreender a obra. O inesperado sucesso editorial foi inexorável e uma vitória clara da defesa da liberdade de imprensa. Os exemplos da obra de João Abel Manta são múltiplos. Em 1972 foi julgado por suposto crime de abuso de liberdade de imprensa, em virtude de o suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa ter publicado uma montagem intitulada Festival, em que uma boca aparecia  a cantar no coração da bandeira nacional. O desenhador viria a ser absolvido em 1973, contando a seu favor com o testemunho das maiores referências do jornalismo e das artes plásticas.  

Em “Cartoons” reúne-se uma parte imprescindível do trabalho de quem usou a ironia no desenho para definir o ambiente do país nas vésperas da Revolução. E ficou na memória de todos, nos dias seguintes a 25 de Abril, um conjunto apreciável de casacas para virar, na primeira página do “Sempre Fixe”, com o título “Sem mãos a medir”… Nos Diálogos Confidenciais, Mário Soares deportado em S. Tomé, é representado com a estátua do Desterrado… Artur Portela Filho debate-se com Eça de Queiroz, ao assinar diálogos imperdíveis com o Conde de Abranhos… José-Augusto França está de alma e coração com Amadeo de Souza Cardoso. Maria Helena Vieira da Silva confronta-se com Josefa de Óbidos e Miguel Torga com Cervantes e Unamuno. E a Revolução dos Cravos será um tema forte, em carne viva. A Aliança Povo-MFA terá como símbolo o selo timbrado por João Abel. A chegada do Portugal Democrático ao mundo Moderno da Civilização está representado pelo encontro dos portugueses do povo anónimo com Einstein, Beethoven, Picasso, Shakespeare, Charlot e todas as celebridades da História. Do mesmo modo, há uma plateia de protagonistas das várias revoluções, observando atentamente um quadro negro com as fonteiras de Portugal.

Não é possível revisitarmos os anos da transição e da revolução sem dispormos do traço deste ilustrador de têmpera e génio (os dois termos são adequados). E lá estão sempre os contrastes sociais entre o antes e o depois desse recomeço da democracia portuguesa. E o cicerone mais adequado é Pedro Piedade Marques, que tem vindo a estudar, a divulgar e a mostrar a obra de João Abel Manta. Folhear este volume significa seguir atentamente a história portuguesa do tempo em que o artista comentou tudo o que viu e sentiu, pleno de humor, compreendendo bem a componente satírica e picaresca da nossa cultura. Faça-se a comparação com a geração do “Álbum das Glórias e de Rafael Bordalo Pinheiro – aí temos uma especial coerência e uma total independência de métodos e de espírito. O traço que agora encontramos é inigualável. Lembremo-nos das personagens de Eça desenhadas por João Abel. Ninguém o fez melhor: Teodoro, Jacinto, Abranhos, Dâmaso, Ega, Maria Eduarda, Carlos, Afonso, Luísa, Basílio, Juliana, Acácio, Gonçalo, Patrocínio e Teodorico – todos alinhados como perfeitas marionetas. E no centro o genial mestre dos bonecos Mestre José Maria. Habituado a comentar livros por representações gráficas, eis a melhor representação dos protagonistas do romanceiro queirosiano. E não esqueço a amabilidade de sempre do autor, quando pedi para que a capa do “Dicionário da Geração de 70” a publicação da extraordinária figuração do grupo dos cinco – Antero, Ramalho, Oliveira Martins, Eça e Junqueiro. O talento do arquiteto e do urbanista merece ainda especial referência. E está bem presente na posição estratégica de sua casa no Bairro Alto, na Rua Nova do Loureiro com uma extraordinária panorâmica onde se destaca a culminar o zimbório da Basílica de Estrela.

Do mesmo modo, a Avenida Calouste Gulbenkian ganhou nova vida com o monumental painel de azulejos concebido por João Abel Manta, a partir da articulação engenhosa de elementos retirados de um catálogo de automóveis “carocha”. Ao regressar a esse local tornado mágico, graças ao artista, fica apenas o severo alerta para que sejam repostos e restaurados os elementos em falta por efeito do tempo. Na obra multifacetada do artista fica o traço seguro e marcante do desenhador, mas igualmente a presença do pincel de quem herdou o código genético de seus pais, os primeiros mestres. A intervenção de João Abel nos primeiros números do JL é memorável, marcando uma identidade própria, em que os limites na linha gráfica dão lugar à força do claro-escuro e à utilização do método dos grandes pintores, em articulação com a técnica da colagem…  Em cada campo em que trabalhou soube assim usar da originalidade e de uma extraordinária capacidade para sensibilizar o leitor para o sentido das palavras e da escrita. Essa foi sempre uma atenção especial que teve, para benefício de quem pôde usufruir do método ativo que cultivou.    

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *