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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Guernica de Pablo Picasso, Museu Rainha Sofia

O figurativo e o abstrato nas artes

Quem hoje é apreciador zeloso ou se pronuncia a favor da arte figurativa é considerado antiquado ou pouco versado em matéria artística.

Sempre se ouviu, em questões de gosto, que a arte figurativa já não se usa, porque ultrapassada, preferindo-se a abstrata (para uns), sendo esta tida como incompreensível, dado que as pessoas, em geral, não percebem o que lá está, preferindo-se a arte figurativa, em desfavor da abstrata (para outros).

O que é extensivo a todas as artes, desde a pintura, à música e literatura, por exemplo.

O fim da pintura figurativa (e o nascimento da abstrata) foi vaticinado com a descoberta da fotografia, dado esta copiar ou imitar mais fielmente a natureza, multiplicando o real em imagens realistas através de um processo rápido, ao contrário dos quadros pintados, implicando que, a partir daí, a pintura tinha de seguir outro caminho, reclamando uma linguagem própria, libertando-se da necessidade de cópias ou imitações, assumindo a sua autonomia face à realidade.   

Também a melodia na música, dominante até aos anos 60 do século XX, caiu em desábito, substituindo-se a música melodiosa por outras formas musicais, como a música concreta ou o rock, mais imediatista e com menos preocupações em ser harmoniosa, mesmo que agradável, havendo quem fale num amontoado de notas e sons, por paralelo com um acumulado de cores na pintura abstrata.   

A literatura não é exceção, ao considerar ultrapassada a visão oitocentista do romance, passando de moda, ou deixando de ter, o chamado “enredo” ou “trama”, não apelando a uma mensagem explícita, nem a uma leitura simples, direta, imediatamente inteligível, com um vocabulário acessível e compreensível, assentando a mais celebrada na sua evolução histórica e em combinar palavras que não pretendem contar uma história, antes criar determinadas sensações estéticas, prendendo o leitor essencialmente pelo envolvimento literário da obra, atingindo o auge na poesia.   

Mesmo o cinema, a mais realista de todas as artes por natureza, para muitos (com o teatro) enveredou pela abstração, com o aclamado “filme de autor” europeu (Bergman, Godard), o que foi travado pela vinda massificada, para a Europa, da sétima arte norte-americana, mais concreta e realista.

E sempre houve (e há) pintores que fazem pinturas figurativas, músicos que criam músicas melódicas, escritores que escrevem e contam histórias em romance, como o exemplifica, entre nós, José Saramago, premiado com o Nobel da Academia Sueca.   

E embora se prove que o abandono do real e figurativo é uma tendência do nosso tempo, um movimento de desconstrução e rejeição do tradicional e clássico, isso não significa que, a partir daí, as artes tenham de seguir forçosamente sempre esse caminho das categorias modernistas, podendo subsistir várias correntes e visões estéticas.  

Esta fuga das artes ao real e atração por formas puramente abstratas e de emoções/sensações/vivências estéticas, é tida e vista, por muitos, como uma imposição e um meio de comunicação e saber elitista, de estruturas experimentalistas destinadas a um público universitário, um sinal de decadência, de retrocesso e recuo civilizacional.    

Fuga que, para outros, é evolução e progresso, privilegiando o modernismo contemporâneo, em obediência ao princípio de que repetir fórmulas estéticas com provas de vida ultrapassadas não constitui critério de validação artística. 

Ou se está de um lado, ou do outro. 

Manda o bom senso, em qualquer caso, que não podemos negar a época e o tempo em que vivemos, concorde-se ou não.

Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 268

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