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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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JÁ LÁ ESTIVEMOS…

 

Minha Princesa do Céu:

Será disparate falar-te assim, mas sempre me ensinaram que, neste eterno-infinito (mais um pleonasmo, desculpa!) onde ambos estamos (desculpa-me, outra vez: não estamos, só somos), ambos nós, tu e eu  –  nem eterna nem infinitamente, mas tão simplesmente para sempre, pois só a simples sempricidade fará sentido  –  será disparate (?), dizia, lembrado sem lembrança, tratar-te assim… Mas maior disparate, ainda, seria tratar-te por minha Princesa de mim… aqui (?), onde (?)  –   neste “assento etéreo” , disse Camões, eivado de um paganismo cósmico, greco-latino, que também ocupa representações cristãs do que não sabíamos  –  “aqui/onde” mulher alguma recordará qual, do primeiro ao seu sétimo marido, pois tão só na comunhão de todos os santos nos reconhecemos. Deixemos aos sábios teólogos lá de baixo  – que, a nós, subidos a este assento etéreo, já nada poderão ensinar  –  os debates sobre o celibato do clero secular, a ordenação das mulheres, o divórcio (com as subtilezas que distinguem um contrato dum sacramento, ou os confundem)… Nós que bem sabemos como o gosto (clerical?) de um qualquer exercício de poder tantas vezes confundiu o amor do céu com a autoridade da terra… Aqui onde somos, nada nos diferencia, e só nos reúne o acolhimento da misericórdia de Deus. É bom! O nosso Camilo Português, digo-te a ti, Princesa que foste, lá anda pelo terreno do mundo intermédio, entre trevas e visões, feito cego, coitado ainda, pois cego poderá ser por umas ou por outras. Queira Deus que não lhe falte esse tactear que encontra as pedras certas do caminho, nem se lhe apague a lanterna que na mão leva, como Diógenes, na busca do Homem que tão dificilmente enxergamos “lá em baixo”. Já eu, há década e meia, dele me tinha despedido, quando, nesse Japão tão lindo, que fora do tempo partilhámos e neste “assento etéreo” comungamos, ele reuniu, com monges e coros budistas, o Coro Gregoriano de Lisboa. Em 1995, logo a seguir à devastação  –  e no sítio dela  –  do grande terramoto de Kobe. E em templos, cristãos e budistas, em Tokyo ou em Tera-Dera, no respirar silencioso e cheio das montanhas, se ouviram cânticos de concórdia, humildade e paz.

Mas este nosso malandro (há partidas que não se pregam a ninguém, nem a mim que estou nos céus!), já tinha cantado a “casa da Mariquinhas”  –   fado soez, e de Lisboa, nessa garganta que amava Coimbra  –  em jantares que fazia lá em casa… À guitarra portuguesa, acompanhava-o S.A.I. o Príncipe Takamado, primo direito do Imperador, 7º na linha de sucessão. Nesses “agapés” reuniu Fernando Alvim, João Torre do Valle, Mísia, António Chainho e Mário Pacheco. Já eu era ser deste eterno assento: não me era dado invejá-lo. Ainda te disse, Princesa, quando ambos por lá andávamos, que davas cabo de mim. Não deste! Mas aquele maroto talvez tivesse dado, se Nosso Senhor não me tivesse feito subir, “in tempore oportuno”, num elevador que, valha a verdade, sempre enjoa menos do que a barca de Caronte.

Beijo diáfano.

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira 

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