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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Nascer é um movimento eterno…


Meu Caro José Saramago:

   Tenho-lhe escrito umas cartas, que vou guardando, quiçá para depois das “Festas”… Nessa eternidade, o José já (?) não tem noção do tempo, não saberá o que é um “engarrafamento” de trânsito, nem qualquer demora dos correios… Por cá, temos receio desses atrasos todos, nem na prestação das mensagens por telemóvel ou rede electrónica confiamos sempre. Veja bem, compreenda-me e perdoe-me: pois se, “daí” pode ver tudo, espero que compreenda as minhas reticências quanto à apregoada instanteineidade do serviço de correios para a eternidade…e me perdoe a dúvida! Saberá, melhor do que eu, como é humano o receio, o medo, a dúvida, a falta de fé. E terá também percebido como é igualmente humano o esforço de ser-se corajoso, temerário até, esperançoso numa promessa e fiel à resposta que lhe der. Ser-se humano é ser tenso, entre o passado antiquíssimo donde nos nasceu a alma e o futuro prometido que em segredo nos espera. Escrevo-lhe no domingo  –  que para si já não tem estação nem data  –  que repete a mensagem que aprendi menino ainda, quando a missa ainda era “dita” em latim: Gaudete in Domino semper! Íterum dico: gaudete! No terceiro domingo do Advento, somos chamados a entender que, na tensão de nós, se abre um coração à alegria. Que Deus não é um estranho, um ser castigador, que nos condenaria até pelo mal que não fizemos, antes é, simplesmente, o amor que está  –  porque é  –  no íntimo coração das coisas todas. A glória de Deus não é uma conquista doutrinária, menos ainda uma qualquer obrigação canónica. A glória de Deus é onde são os homens de boa vontade.

   Assim lhe confio a si, que não conheci, o que o coração me leva hoje a dizer aos meus amigos, crentes e incréus, que comigo por cá deambulam na esperança:

      Dei com o Menino Deus

      deitado à nossa condição.

      Perguntei-lhe Que fazes aí?

      Disse-me:

      A resposta terá de ser tua:

      de cada vez que socorreres um aflito,

      encheres de riso os olhos das crianças,

      alegrares os corações que encontrares,

      terás semeado a esperança

      e o gosto da graça

      da vida fraterna…

      E então saberás porque vim.

   Que este Natal seja uma promessa de Ano Bom do nosso coração.

   Esteja o José também no nosso abraço.


Camilo Martins de Oliveira

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