Minha Princesa de mim:
A portugueses risonhamente gabarolas ouvi a história do sete (7) de pé cortado… Na verdade, por razão que desconheço, só em Portugal se traça o “pé” do 7, quando se escreve o algarismo. A tal história explica que, quando Moisés apresentava ao povo as tábuas da Lei, exclamou: Numero Sete: não cobiçarás a mulher do próximo! E logo um português, perdido no meio da multidão, gritou: Corta! Mais um tique de luso-machismo, a emparelhar com aqueloutro dito: Deus criou o homem e a mulher, o português o mulato! Mas o machismo é universal e antigo, como aliás se depreende do mesmíssimo séptimo mandamento: sempre se disse não cobiçarás a mulher do próximo, e nunca, nunca, não cobiçarás o marido da próxima! Como hoje já todos sabemos que as mulheres não são necessariamente mais castas e santas do que os homens, continuam por aí, algures ou nenhures, umas explicações por dar… Já na segunda versão do livro do Génesis sobre a criação da mulher, Yahvé Deus disse: «Não é bom que o homem fique só: tenho de lhe encontrar uma auxiliar, que com ele se encaixe…» Então, Yahvé Deus fez cair sobre o homem um torpor que o adormeceu. Tirou-lhe uma costela e fechou-lhe a ferida. Depois, da costela tirada ao homem, Yahvé Deus modelou uma mulher, e trouxe-a ao homem. Então, este exclamou: «Caramba! É osso dos meus ossos, carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem!» E é por isso que o homem deixará seu pai e sua mãe, e ficará com sua mulher e são uma só carne. Ora, ambos estavam nus, homem e mulher, e não se envergonhavam um do outro… Repara em que nos versículos 26 e 27, do capítulo I do mesmo livro do Génesis, anteriores a estes – que são do II – Yavé Deus diz simplesmente, no sexto dia da criação, antes de descansar: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança…» Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou.” E é só depois da narrativa segunda da criação da mulher que surge a história mítica do pecado original e da concepção e nascimento de Caím e Abel… Então teremos abraçado — e fomos nele ficando… — esse mito, tão alheio à natureza do ser humano, mas que se apoderou de quase todas as nossas culturas e ideologias, de que o outro sexo não é – tão simplesmente e tão lindamente – a outra metade de nós… mas é o inimigo! Até à Mãe que nos concebeu, a mim, a ti a cada um de nós, na paciência, no sangue, na dor, nós negamos a dignidade que reconhecemos em virgens fecundas, fecundas como aquelas deusas antigas e pagãs, que os primitivos adoravam, porque só nelas concebiam o segredo misterioso de toda a vida… Somos fracotes, minha Princesa de mim. Idealizamos mães e corações imaculados, vogamos por narrações tão vagas e vazias como as aparições românticas que traziam heróis restauradores aos corações de meninas desprevenidas… Ainda não percebemos que as “feministas” que reclamam os múltiplos direitos da vagina são a consequente antítese da misoginia crónica de uma cultura machista, e – infelizmente para o meu sentimento e fé católica, que teima em não entender que os anjos não têm sexo, pois que Deus incarnou, à sua imagem e semelhança: fez-nos homem e mulher. E, pelo Espírito sempre, nasceu da carne. Fez-se homem e habitou entre nós. Bendito seja! Dou-te uma mão humana.
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira
