Minha Princesa de mim:
Soltaram-se-me do peito, para a memória, nessa hora em que a noite madruga e os monges antigos rezavam matinas, estes decassílabos que, na manhã nascente, te escrevo, em forma de soneto (?) que não mexi, porque apenas quis dizer-to:
Há, em nosso sofrimento mais sentido,
um padecer mais que a paixão padece;
que, em tanto sofrer, já não é sofrido
o que de nós já não se compadece..
De tanta dor a mágoa se adormece
e tão serena fica, já confiante
em que não dói o que doer parece,
que em mim me quedo, de mim tão distante
que só de mim a mágoa me aproxima,
ou de mim me leva, na hora prima
dessa manhã que já não quero ver…
Até que o claro azul e a luz do sol
se acordem no canto do rouxinol
e o mistério me faça renascer!
Há dois mistérios na vida: o da vida que está em todas as vidas e há milénios tentamos desvendar; e o mistério da nossa própria vida, desta que cada um de nós em seu peito escuta… Esta em que, simultânea e continuamente, somos sujeito e objecto do nosso pensarsentir. Que nos alegra e de que damos graças; e nos dói muito, por ser e não ser nossa ao mesmo tempo. A tal ponto que nem sabemos se só no nosso tempo se situa. O drama do ser humano, minha Princesa que até camponesa de mim poderias ser, é a consciência antecipada da morte. No ciclo circular da vida — como em todos os seres do universo vemos — tudo, tudo, nascendo, crescendo, minguando, morrendo, se transforma… Pode o instinto vital comandar combates e afastar ameaças — não há animal ou planta que, na hora de ser digerida, não tente adiar o seu regresso — mas só nesse momento se decide a sorte final… E, mesmo então, esse ser se curvará ao jugo de uma ordem ou destino, sem sequer imaginar que se submete ao fado ditado por deuses desconhecidos. Só aos homens tal fado ocorreu e, por isso mesmo, de muitos modos o representaram e interrogaram. Pus-me hoje à escuta de lieder do Schubert, e caí, inevitavelmente, no Der Tod und das Mädchen, com poema de Matthias Claudius: Vorüber, ach, vorüber,! – Grita a menina moça à morte. Vai-te e não me toques, tão nova ainda sou! Ao que a morte responde: Ich bin nicht wild, sollst sanft in meinen Armen schlafen! Não sou cruel, em meus braços poderás docemente dormir! Será o compositor, ou o seu poeta, que procura iludir-se ou ultrapassar a morte, ou será esta que subrepticiamente nos alicia? Ou será que todos, todos nós, simultânea e contraditoriamente, a repudiamos e desejamos? Em cada um de nós, que distância separará o mártir do suicida? Será só a diferença entre a justificação e o cansaço, ou entre a esperança e o desespero? Ou antes será a renúncia a compreender o mistério da nossa mesma vida? Há quem anseie por morrer, para esquecimento de si e sua circunstância, ou por imolação própria a um deus, uma causa, uma promessa. E há quem diga que morrer será desvendar o anseio de que o ser humano tem consciência… No sofrimento que incessantemente me interroga, não quero dar a mão à morte: por doce esquecimento que ela seja, é sempre escura, tenebroso nada. Não tem mistério algum, essa morte de que falamos. Tem fatalmente uma qualquer data marcada no meu tempo. Mistério, sim, é esta vida em mim, que não prenderei, para que um dia seja também minha. Dou-te uma mão cheia de liberdade.
Camilo Maria
