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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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TEMPO DE FÉRIAS…


DOMINGO LISBOETA de José de Almada Negreiros
Prosseguimos as sugestões de férias! Na Gare Marítima da Rocha de Conde de Óbidos, Almada Negreiros realizou seis pinturas murais, organizadas como se fossem dois grandes trípticos, um representando cenas da vida lisboeta ao domingo, junto ao Rio Tejo, e outro, o tema da emigração, condensada numa cena de despedida no cais. Nestes trípticos, conjuga-se o desenho geometrizado, de raiz cubista, com um tema populista local. Por este último aspeto, poderia considerar-se Almada um pós-moderno «avant la lettre», ele que foi um dos principais introdutores do modernismo em Portugal, desde os anos dez do século vinte! Quando foram apresentadas ao público, estas pinturas causaram polémica, tanto de ordem estética como política. Nesse momento, os jovens interessavam-se pelo neorrealismo e pelo abstracionismo geométrico. Almada estava mais interessado nas sínteses das conquistas da vanguarda e não tanto nos seus radicalismos. Estes murais, e os numerosos guaches que foi realizando durante esses anos, atualizaram um certo cubismo picassiano, de arabesco audacioso. Na estilização das figuras, na demarcação das zonas de luz e de sombra, no recorte dos perfis, todas as possibilidades expressivas das linhas são exploradas, quer sejam estruturantes quer sejam envolventes. Há por vezes malícia no modo como acentuam algum pormenor; enfatizam a teatralidade dos gestos das figuras humanas, podendo reparar-se que, quanto mais pura é a forma, mais nítido é o gesto, como o braço que se estende para apanhar o boné que caiu à água; e, ricas de implicações espaciais, as linhas comandam a composição e acentuam o construtivismo que, desde o início da sua atividade de desenhador, sempre interessou a Almada e que o levará até um peculiar abstracionismo de cariz conceptual, em 1957.

Como em muitas outras pinturas de sua autoria, Almada utiliza a luz lateral. Na Gare Marítima, ela ajuda a integrar as pinturas no espaço arquitetónico, pois essa direção é propositadamente coincidente com a da luz real que entra pelas grandes janelas. Almada alcança, nas suas melhores obras, uma ampla generalização, sendo cada pintura sua concebida como um jogo de planos, atingindo uma visão válida da estrutura de qualquer tema. Se mantém um ou outro esquema tradicional, e se o ideal clássico decorrente da síntese das partes é visado no jogo de planos, a verdade é que as relações rítmicas dessas partes são modernas. É nessa ritmicidade que importa reparar.

Rui-Mário Gonçalves (in CNC – Obras de referência).

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