O TEATRO DA RUA DOS CONDES – SÉC. XVIII
A rede teatral de Lisboa, no ponto de vista do desenvolvimento histórico da expansão da cidade, apresenta um referencial curioso na sucessão de Teatros e Cinemas Condes, desde o século XVIII, mais ou menos na localização onde o último foi inaugurado em 1952, edifício que perdura hoje com outras finalidades.
A designação de Condes ou Teatro da Rua dos Condes, em sucessivas salas de espetáculo decorre da edificação do primeiro, na zona da cidade onde se erguiam os palácios do Conde de Castelo Melhor e de outros Condes, todos destruídos no terramoto de 1755. Dez anos decorridos, o Teatro inicia atividade regular de teatro declamado e ópera, num edifício abarracado erguido a partir de projeto do italiano Petronio Manzoni. Por ali funcionou também episodicamente um Pátio.
Foi neste velho Teatro da Rua dos Condes que se iniciou, no ponto de vista de espetáculo, a reforma do teatro português elaborada por Garrett em 1836: aí se instalará a chamada Companhia de Teatro Nacional e Normal, dirigida pelo ator francês Emile Doux, que mais tarde se fixaria no Rio de Janeiro. Mas é de assinalar que a categoria de Teatro Nacional já vinha pelo menos desde as reformas de Pina Manique: Ana Isabel M. T. de Vasconcelos cita as razões do Intendente a favor do Condes – “por ter a largueza que é bem manifesta” designadamente nos “corredores que dão acesso aos camarotes” e ainda “por ter decência a casa onde se vão refrigerar alguns espectadores, para beberem os seus cafés e buscarem outros socorros que nela há”! (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett”, ed. MNT pág. 24).
Mas apesar disto, as descrições deste primeiro Teatro da Rua dos Condes não abonam nem da sua qualidade arquitetónica, nem das condições de produção: aliás basta ver as gravuras e ler as referências da época. William Beckford, escrevendo em 11 de outubro de 1787, considera o Condes “baixo e estreito, o palco uma pequena galeria e os atores, pois não há atrizes, abaixo de toda a crítica”. Exatos 50 anos depois, em 1837, José Agostinho de Macedo fala no “pingado, esfarrapado pano”, nas “teias de aranha” e “no denso e fedorento vapor de sebo e azeite de peixe” da iluminação… E em 1872, Costa Cascaes refere-se ao teatro como “espelunca imunda e carunchosa”. (cfr. Duarte Ivo Cruz “Teatros de Portugal” pags. 30, 31)
A gravura que se reproduz confirma esta apreciação. E note-se que o Teatro Nacional de D. Maria II funcionava desde 1846. Daí que, em 1888 é inaugurado o novo Teatro da Rua dos Condes, em terrenos pertencentes a Francisco Grandela, já no contexto da abertura da Avenida da Liberdade. O projeto arquitetónico é de Dias da Silva, e para viabilizar a construção, diz Sousa Bastos, “houve uma emissão de títulos de dez mil reis, amortizáveis em dez anos” e acrescenta, no “Diccionário do Teatro Português (1908), que “estão todos pagos”!…
Mas desses teatros e depois cinemas Condes, falaremos para a semana.
DUARTE IVO CRUZ
