Nas férias, era um pouco mais complicado, uma vez que no Algarve era difícil de encontrar a revista. Mas o meu pai, incansável, enviava-nos nuns rolinhos de papel pardo, que chegavam no início da semana (os correios eram rápidos), os números da revista. A abertura desse tesouro era uma liturgia. E a cor da capa ressaltava em toda a sua magnitude. O exemplo que hoje reproduzo é indiscutível.
Aqui está Sherlock Holmes com as personagens fundamentais de um novo continuado que dava os primeiros passos. A autoria da capa é de Fernando Bento (1910-1996), que considero com Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005) um dos grandes clássicos portugueses da BD. Aqui estão todas as características e qualidades de Bento – o traço inconfundível, capaz de interpretar o carácter e a psicologia, a criteriosa escolha da cor, a segurança irrepreensível, capaz de dar vida, realismo e romance à ilustração.
Devo dizer que a literatura e a ilustração para jovens exigem um domínio muito especial da técnica e da arte. Tudo importa e não é aceitável para um jovem, de atenção desperta, um erro de movimento ou de perspetiva. E Fernando Bento era muitíssimo cuidadoso nesses campos. Olhando para Lucy Parr e para Mary Holder compreende-se todo um mundo de diferenças e de distância… Percebemos a virtude e a perversidade.
Durante as férias havia maior disponibilidade para ler tudo… E as histórias de quadradinhos eram uma magnífica introdução para a literatura a sério – Moby Dick, Beau Geste… Adolfo Simões Müller teve, aliás, a grande qualidade de ser muito criterioso na escolha de desenhos e escrita de qualidade. Por isso o «Cavaleiro Andante» (1952-1962), na sequência do «Diabrete» (1941-1951) foi um caso especial nesta arte.
Essa a memória que hoje recordo. Não esqueço, obviamente, «O Papagaio» (1935), «O Mosquito» (1936) e o «Mundo de Aventuras» (1949), mas o meu tempo foi o do «Cavaleiro Andante»…
CNC
