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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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Crucifixo no Metropolitan Museum of Art de NY nº: 1989-346

Minha Princesa de mim:

Numa qualquer das muitas cartas que te tenho escrito, quiçá mesmo em várias delas, falei-te da damnatio memoriae, desses surtos de perseguição e destruição de lembranças e vestígios, de testemunhos… Têm-na praticado Estados e Igrejas, movimentos revolucionários e anarquistas, instituições conservadoras e zeladoras de fés e tradições, invasores, conquistadores e contestatários. Todos em fúria de eliminação de imagens, símbolos, memórias, heranças, ideias, prestígios, superstições, identidades e heresias… e com ganas de imposição do seu próprio poder, verdades e vontades! E assim se foram arrasando cidades, monumentos e túmulos, queimando livros e pessoas, rasgando, rompendo, quebrando gravuras, quadros e estátuas, apagando e falsificando fotografias e filmes, eu sei lá quanto mais, ao longo de milénios! O Estado Islâmico e os Taliban não inventaram nada. Num destes dias, deparei, numa revista francesa de história, com um artigo, da autoria de um italiano, sobre o encontro, em finais do século XV, dos portugueses com o Reino do Congo. À chegada de Diogo Cão, em 1482, o manicongo (rei do Congo) era Nzinga a Nkuvu, que irá assinar acordos de cooperação com Portugal, aonde enviará, em 1489, uma embaixada e jovens congoleses para ali estudarem. Em contrapartida de ajuda militar, os portugueses pedirão a conversão ao cristianismo, e o próprio rei será baptizado e passará a ser Dom João I. Mas a inculturação da religião cristã encontrará obstáculos nas tradições locais, designadamente na poligamia, pelo que se sucederão períodos alternados de perseguição quer do cristianismo, quer das crenças e ritos autóctones. Portanto também se apagaram templos e símbolos. Até a fé do rei oscilará e, à sua morte, suceder-lhe-á um filho defensor das tradições indígenas, que depois será destronado pelo irmão, Ndonfunsu, católico fervoroso, promotor de uma arte cristã congolesa, assente sobretudo no símbolo da cruz, a que se associam, escreve Carlo Caranci, significações africanas. E o articulista de Le Monde (Histoire et Civilisations) ilustra o texto com a fotografia de um belo crucifixo em bronze e de africana arte, hoje na colecção do Metropolitan Museum of Art (New York). Peguei nele muitas vezes: foi recolhido, na sua terra de origem, era eu menino e moço, pelo meu tio Manuel, irmão mais velho de meu Pai. Comoveu-me este reencontro com um sobrevivente, que conheci e toquei, e que, por misteriosa razão, tem sido memória recorrente e muito querida. É hoje rara em objectos e pouco conhecida a arte cristã africana dos séculos XVI e XVII, sobretudo se a compararmos com a indo-portuguesa, ou mesmo a japonesa nanbam. E, todavia, também ela testemunha, mais do que uma obra missionária, um esforço de inculturação, como se de nova incarnação se tratasse, novo parto, de uma religião desconhecida, quiçá difícil de entender, trazida por estranhos homens diferentes. Foi sempre problemática a aculturação do cristianismo em paragens remotas, levando mesmo a acesos debates e generalizadas controvérsias, em que participaram pastores, missionários e não só, teólogos e autoridades religiosas, como na célebre querela dos ritos. Acresce que o esforço missionário andou de mãos dadas, quer com o desenvolvimento do comércio, quer com manobras diplomáticas e processos de conquista militar ou submissão política. Assim, se são evidentes as influências das culturas e artes locais em objectos cristãos de culto ou devoção – desde a África ao Brasil, à Índia, Malásia, Indonésia, China e Japão – por esses servirem o quotidiano das vidas privadas e comunitárias das variegadas gentes, já serão caracteristicamente portuguesas, no nosso itinerário, as obras de arquitectura civil,religiosa e militar. E como te escrevo para contigo partilhar memórias e sentimentos, recordo essa pintura a óleo – que tão bem conheces, datada do ano do meu nascimento, e presente de meu Pai a minha Mãe, por essa ocasião – que representa a igreja de Nossa Senhora da Nazaré, em Luanda. Tem-me acompanhado a vida toda, com a brancura da sua arquitectura simples, o terreiro ocre, o cruzeiro nu, o mar azul com um paquete ao longe, para onde caminha, de alva túnica e trouxa à cabeça, uma preta elegante, em passo medido. Não resisto a transcrever-te o poema que lhe dedicou Jorge de Sena em 1972:

Em 1664, o governador destes reinos,

André Vidal de Negreiros (que nome,

ao fim de dois séculos do negócio

em vão visível no seu escudo de armas)

fundou esta capela. Os azulejos

representam a patada de D. Fuas

à beira do penhasco a que o demónio

pensava que o levava pra o deitar ao mar.

Ou do cavalo que estacou de espanto

e não se sabe se de susto ao ver

o cervo a despenhar-se das alturas,

se porque viu suspenso de entre as nuvens

o virginal clarão da mãe por obra e graça

do Santo Sprito em Roma agora banco.

Era devoto dela André Vidal,

embora este outro nome cheire a esturro

ardido noutros lumes.

Branca e de arcos,

pousou-a aqui à beira da baía.

O painel representando a cena do milagre do Sítio da Nazaré, na costa de Portugal, está sobre o arco de uma capela lateral e, como muitos dos outros azulejos que decoram o interior do templo, são portugueses, do reinado de D. João V. Como tantos outros, Princesa, com que deparamos neste cantinho da Europa. Lembro-me de, há muitos anos, em visita à Senhora da Nazaré de Luanda, me ter interrogado sobre a oração de uma velhinha africana, que então vi recolhida e ajoelhada a um canto. Ocorre-me essa lembrança, quando contemplo o quadro que tenho cá em casa e penso nisso da inculturação religiosa, que tanto me intrigou no Japão e me fez reler textos do Susako Endo. Também Jorge de Sena sentiu a questão, como nestes versos do Na igreja dos jesuítas em Luanda:

Conversa a negra no recanto em sombra

da igreja tão de limpa restaurada.

No chão sentada e velha, se abre os braços

em frases de silêncio para o Cristo

que pende morto acima dela, imóvel

e silencioso. Que dirão os dois?

Qual a confusa indecisão que passa

angustia intimidade de sem línguas

nessa cabeça antiga de outra raça

e sobretudo de outros deuses que

falavam por sinais mas claras frases

como as sibilas feiticeiros sabem?

 
Se me perguntasses agora pela condição humana, só poderia dizer-te que a sinto comovente. Dou-te a mão
 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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2 comentários sobre “CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

  1. Camilo, não sei nem gostaria de comentar a tua carta. Apenas que me traz uma serenidade tão boa, também eu rezando numa capela aos deuses já longe. Com amizade, Fernando Vale

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