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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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          Minha Princesa de mim:

Leio na Lapham´s Quarterly, reproduzido num artigo de Danielle Peterson Searls, este retrato  —  feito pelo monge Orderico Vital, autor também de uma história eclesiástica  —  do Réchin (o carrancudo, trombudo) que foi o conde Foulques d´Anjou (1043-1109), que calçava esses sapatos de ponta rebitada que, escreve Orderico, encorajam uma nova moda no Ocidente, para maior alegria de homens frívolos em busca de novidades. Para satisfazê-los, os sapateiros fabricam sapatos com as extremidades recurvadas como caudas de escorpião… E quase todos, ricos e pobres, querem hoje calçar-se assim. Dantes, os sapatos tinham sempre biqueiras redondas, ajustadas ao pé, e correspondiam às necessidades dos homens de todas as classes, fossem clérigos ou leigos. Mas doravante, os leigos, por vaidade, adoptam uma moda que traduz a sua corrupção moral. A moda dos sapatos afunilados, de bico revirado ou não, durou muito tempo, designadamente nos castelos e palácios das cortes feudais e reais. Tenho diante de mim uma iluminura de Jean de Wavrin que, na Chronique d´Angleterre, ilustra um banquete oferecido por D. João I de Portugal a John of Gand: os fidalgos que ali servem assim estão calçados, um deles até levanta alto um pé, no seu passo, com o outro quase pisando o igualmente longo sapato de um senhor… E julgo lembrar-me de um retrato, ainda no século XV, do Senhor Dom Afonso V “talqualmente” calçado.

Ao que parece  —  pelo menos assim afirma a Lapham´s na sua edição de Setembro deste ano, dedicada à moda (Fashion)  —  os cruzados, de regresso à pátria europeia, trouxeram dos califados do Médio Oriente novas razões de conceber o vestuário… Sabemos todos que, na Idade Média, e até mais tarde, o modo de vestir era regulamentado, quer no tocante aos materiais utilizados (sedas, linho, lã, etc.), como quanto aos ornamentos (joias e bordados) ou acessórios (capas, espadas), já que o vestuário correspondia à definição de um estatuto de classe, numa sociedade hierarquizada e com pouca mobilidade. A articulista, antes de contar a história da ruptura que as modas trazidas pelos cruzados impuseram aos códigos medievos do “parecer”, sublinha bem que a rigidez do sistema medieval contrasta com a concepção moderna da moda, em que primam as aspirações e a mobilidade  —  seja quando uma condessa decida vestir-se como rainha, ou uma adolescente americana queira parecer-se com uma parisiense. Para maior clareza, transcrevo um parágrafo em que se recorre à opinião de Roland Barthes, expressa em La Mode et les Sciences Humaines (1966): ele estabelece uma distinção entre a prática universal do adereço e aquilo a que hoje chamamos moda. Moda não é só vestuário e acessórios, é também uma linguagem que se adapta a um tempo e um espaço. Independentemente das razões evidentes pelas quais o vestuário foi inventado, Barthes afirma que a moda desempenha uma função essencial: contar uma história. O porte de um vestido em vez de outro “é um acto de significação e, portanto, um acto profundamente social”. Tudo isso que li me leva, Princesa também por vezes vaidosa ou sorridentemente coquette, a rever conceitos e funções do vestuário. Desde logo se impõe a ideia da sua necessária utilidade: os humanos vestem-se para se protegerem das condições meteorológicas, tal como se calçam em função das asperezas, consistências e temperaturas dos solos que pisam. Afinal, também cobrem o corpo para protecção contra animais e insectos, ou mesmo plantas. Para estes efeitos, começa por utilizar peles de animais, folhas, cascas e outros materiais de origem vegetal. Só mais tarde aprenderão a transformá-los, curtindo, tecendo, etc.. Já industriosos, inventam arranjos e combinações de materiais desenhos e cores, e assim concebem uma nova função para o vestuário: a função estética. O que nos cobre da cabeça aos pés, para nos proteger, começa então a ser também um enfeite que nos faz parecer assim ou assado, que evolui e muda conforme ao gosto de cada um ou aos cânones que regem as aparências e as relações num grupo social. Irá pois o vestuário ganhar uma nova função: a semiótica. Pela terra inteira, das mais diversas maneiras, vestuário e calçado vão significar condições de sexo e idade, de estatuto familiar, social, político e religioso, profissões e cargos, desde os mais humildes até à realeza… As informações reunidas e transmitidas por esse modo podem, aliás, dizer mais do que só sobre a pessoa que assim se veste e calça: culturas houve em que vestidos de mulher chegavam a indicar a diferença de idade relativamente ao marido. Na Suécia, lenços de viúva evoluíam, ao longo dos anos de viuvez, do negro liso até menos negro e outros desenhos, significando sempre o tempo decorrido. Os kimono das senhoras japonesas, pelo comprimento e folga das mangas, como pelo modo de enlaçar o obi (faixa de seda à cintura) aponta serem solteiras ou casadas, e mesmo, por mais livres e decotados, se se trata de cortesãs. Além disso, o padrão ou estampa dos tecidos, conforme o tipo de flores ou folhas desenhados e as suas cores, informa-nos das respetivas idades ou geração… No ocidente europeu, também se simbolizaram motivos e cores. Os paramentos litúrgicos da Igreja Católica, por exemplo, vão cambiando as cores, de acordo com os tempos litúrgicos (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Tempo Comum) ou os santos festejados (mártires, confessores, virgens, etc.). Nesse caso, a utilização das cores foi canonicamente fixada. Mas, alhures, o significado cromático variou bastante: no século XVI, por exemplo, vermelho era orgulho, violeta traição, cinzento esperança, enquanto no século XV esta ainda se vestia de verde, em memória da Primavera, e, quiçá por lembrar a púrpura romana, o vermelho era manto da realeza e hábito de festa, como nos vestidos de noiva. Estes tornaram-se brancos  —  que é cor de luto noutras culturas, e até o foi para rainhas de França  —  mas que, antes de significar virgindade ou pureza, já quis dizer fé e humildade. Se os bispos e cardeais se vestem de púrpura, que é cor de prelado (o prae latus, aquele que tem precedência, que é levado à frente), já o papa se veste de branco, em sinal de humildade: foi S. Pio V, papa do século XVI, que quis conservar o seu hábito branco de dominicano, frade pregador e mendicante, o fundador dessa “moda” papal. O preto é, para nós, tom de luto. Mas Filipe o Bom, duque de Borgonha, marido de Isabel de Portugal e Lencastre, filha do nosso D. João I, pai de Carlos o Temerário e avô do imperador Carlos V, este casado também com uma Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, vestia-se de negro, para melhor realçar o brilho das joias que trazia. A partir daí, de negro se vestiram soberanos espanhóis, como os conhecemos por retratos de Filipe II, seu filho, e até os nobres e burgueses dos Países Baixos, os muitos  que vemos na pintura holandesa do século XVII… talvez por desafio ou emulação do “papista espanhol”! Com tanto desfiar de conversa, minha Princesa de mim, já me esquecia dos sapatos arrebitados e da oriental moda dos cruzados, por estes trazida até cá desde o califado fatimita: tecidos e adornos variados, bordados e coloridos, sedas e pedrarias, eu sei lá quanta vaidade e luxo… Refere, no seu artigo, a Danielle Searls que Geoffrey de Vinsauf, poeta e escritor inglês do século XII-XIII, conta que, em 1192, o exército de Ricardo Coração de Leão atacou uma caravana turca e se apropriou de ouro e prata, de capas de seda, de vestidos violeta e escarlates,  de vestuário com diversos enfeites… E eu, Princesa, aqui estou, de robe de chambre simples, no meu gabinete forrado de livros, terminando esta carta com que espero distrair-te de outras vaidades e coisas menos bonitas ainda… Fecha os olhos e vê-me, que te sorrio

 

                                        Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

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