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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Conta-se que Vicente  van Gogh, ao ver pela primeira vez (em 1885) A Noiva Judia, de Rembrandt, terá dito a um amigo que daria dez anos de vida para poder sentar-se a ver o quadro durante quinze dias, comendo apenas pão duro. Sabe-se que, em carta a seu irmão Theo, escreveu, em 10 de outubro do mesmo ano: Que pintura tão íntima, tão infinitamente compassiva! O fundo da cena é escuro, a luz emana do próprio casal terna e silenciosamente abraçado. De Rembrandt disse um dia Eugénio Fromentin que foi com a noite que ele fez dia! E Claudel fala de sacramento da luz… É toda interior, vem-lhes da alma, a graça desse momento, que nos revela uma história e uma comoção que as mãos de Rebeca e Isaac tão bem contam! A direita dele sobre o peito dela, mais do que gesto erótico, que também é, é sinal de união e de fidelidade: diz-se que, de todos os homens da sua família, Isaac foi o único que só conheceu uma mulher, Rebeca. Mesmo Abraão, seu pai, teve concubinas e descendência delas… Pelo relato do livro do Génese (26, 1-11), uma fome levou o casal a partir para terras de filisteus, cujo rei, Abimelech, teria reparado na beleza de Rebeca. Para proteger a mulher, e fugir ele mesmo de possível ameaça de morte, Isaac declarou-se irmão de Rebeca. Mas o rei surpreendeu-os em ternuras mais conjugais do que fraternas e descobriu a verdade. Comovido, nem os castigou, apenas os admoestou pela mentira e proibiu os seus súbditos de importunarem o casal. Noutras ilustrações deste episódio, incluindo em desenhos do próprio Rembrandt, a cabeça de Abimelech surge sempre, à espreita.

No quadro, não. Aí, o rei está ausente, a presença que conta é a do amor do casal. Já te tinha falado, Princesa, da intimidade de si, de nós, onde afinal habita o motor da espiritualidade, que o pintor seiscentista holandês – que da Holanda nunca saiu, mas onde certamente recebeu a emocionante influência do Caravaggio – tão bem exprime por olhos cegos e pela ternura de mãos que se encontram ou abraçam…

   Neste quadro, a mão esquerda do noivo, pousada no ombro da amada, poderá dizer proteção – como narra a história – ou posse – como será legítimo deduzir e era normal entender-se no contexto da época. Mas essa posse é ali partilhada, é mútua: a mão esquerda dela, repousando sobre o seu próprio ventre, acaricia em suave acordo a direita dele. E a sua direita repousada está, no seu ventre, mais abaixo. Entre as três mãos está o ninho que criaram, onde nascerão, gémeos rivais, Esaú e Jacó. Nova história, que Machado de Assis também contará, imaginando-a no Rio de Janeiro. História intrigante – como também será a luta de Jacó com o anjo – de que, quiçá, noutro dia te falarei.

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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