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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

    Minha Princesa de mim:

 

   Em curiosa visita à igreja de Nossa Senhora dos Olivais e ao Convento de Cristo, em Tomar, escutámos muitas narrativas, considerações, suposições e efabulações sobre os Templários e a Ordem de Cristo, as suas secretas filiações espirituais, místicas e religiosas, os símbolos de todas elas sendo apontados e descobertos ao longo dos nossos percursos, diurno e noturno, este permitindo que a súbita incidência de um raio de luz sobre uma inscrição, um baixo ou alto-relevo, uma escultura, uma pintura, fosse revelando insuspeitáveis segredos… Digressão incontestavelmente divertida, estimulante das imaginações.

 

   A aparição gritante, num capitel da charola, de uma cabeça degolada de São João Baptista deu azo a prolongados comentários ao suposto “joanismo” dos monges guerreiros – e pertinentes mistérios e rituais… tal como a imagem de Santa Maria Madalena foi proposta para nos demorarmos em lendas e narrativas acerca da amiga de Jesus, seus alegados amores, e a importância que ganhou o movimento “magdalenista” e o seu culto, designadamente no “Midi” francês: Provença e Languedoque-Rossilhão, também país de eleição dos Templários em França. Onde se confundiram os mesmos com gnoses e cátaros… Pelo meio, surgiram também outras confusões: de sinópticos com canónicos, de apócrifos com gnósticos, etc. Os evangelhos sinópticos, Princesa, como bem sabes, são três (Mateus, Marcos e Lucas), os canónicos quatro (esses mais o de João). E chama-se, isso sim – por oposição a canónicos – apócrifos aos escritos excluídos da Bíblia (desde livros do Antigo Testamento a evangelhos, epístolas e atos de apóstolos) os que não foram, finalmente, recolhidos pela Igreja – num processo que durou do século II ao IV – para a liturgia e instrução dos seus fiéis (os livros escolhidos são, portanto, os canónicos).

 

   Entre os escritos apócrifos (do grego apókryphos, isto é, secreto, velado; por isso Apocalipse quer dizer revelação, retirada do véu que encobre) estão uns designados gnósticos; convém todavia observar que nem os chamados apócrifos são todos gnósticos, nem os que assim são designados são sempre, em rigor, apócrifos bíblicos, e até os há sem necessária relação ao judio-cristianismo. Gnóstico vem do grego gnosis, conceito de cujo significado te falarei mais tarde. Mas irei primeiro ao Evangelho de Maria, que nada tem a ver com Nossa Senhora, Mãe de Jesus, mas é o apócrifo Evangelho segundo Maria Madalena. Começarei por esse, de que te traduzirei trechos da versão francesa de Françoise Morard (em Écrits Apocryphes Chrétiens – II, La Pléiade, Gallimard, Paris, 2005), que, em nota introdutória, nos informa situar-se, de acordo com investigadores autorizados, a data de composição do Evangelho de Maria em meados ou na 2ª metade do século II. Informa ainda que ele é o primeiro escrito do códex de Berlim 8502, um papiro adquirido no Cairo, em 1896, por um sábio alemão, e conservado no Departamento de Egiptologia dos Museus Nacionais, na capital alemã. A ele irei, Princesa, na próxima carta.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

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