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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Shirley Jaffe e a união na diversidade. (Parte I)

‘I am interested in non-centrality, coexistence, constant invention-making movements that are not repetitious but function together as a whole. There is always an element of non-belonging that holds everything together in tension. I don’t want a lyrical beauty. One could say I want to capture an unborn reality.’, Shirley Jaffe

Logo após a experiência geométrica, do final dos anos sessenta, Shirley Jaffe (1923-2016) começou a pouco e pouco a aproximar-se do registo que a caracterizou até ao final da sua vida.

Lê-se no livro ‘Shirley Jaffe. Forms of dislocation’, de Raphael Rubinstein que por volta de 1983, a artista começou a construir composições com fundo branco. E a partir de então, no campo da tela flutuam gestos solidificados que não se repetem.

Desde sempre Jaffe tenta manter as suas pinturas libertas do que denomina ‘formas secundárias’, isto é, formas que acidentalmente se referem aos objetos do mundo real. E o seu princípio da não repetição também a afasta da criação de padrões e do movimento Pattern and Decoration que surgiu em Nova Iorque, nos anos setenta, em reação aos movimentos minimalismo e conceptualismo.

Até então, nenhuma cor funcionava como fundo – existiam sim diversas e marcadas zonas de cor.

E a descoberta do branco acentuou a complexidade das formas e acentuou a diferença com o mundo real.

Apesar de parecer um fundo, muitas vezes as áreas a branco são decididas já no final da composição. O campo branco é, assim como um espaço positivo e negativo – funciona como ligação entre as formas e existe para ser uma forma intermediária. As formas coloridas não se tocam, muitas vezes por causa das áreas brancas aplicadas entre elas.

‘That’s what’s quite exciting about continuing to live and paint. The element of chance, but also taking from experience. One has to constantly push some visual idea to unforeseen conclusions. It might start as an unconscious tendency but has to become a conscious force.’, Shirley Jaffe

As formas, que Jaffe cria, são assim transportadas para um estado instável mas sugestivo, um estado em que a separação entre o figurativo e o abstrato é quase inexistente. As formas sugerem algo quase reconhecível e familiar mas apresentam um desafio ao observador – podem ser mãos, folhas, rabiscos, sombras, faces, ondas, signos caligráficos. Curiosamente nos guaches de Jaffe, estas formas quase reais, são muito menos evidentes – o registo é mais rápido, livre e solto, não há fundo branco e a pincelada é visível.

 

Ana Ruepp

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