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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CULTURA HOJE

Sérgio Nazar David: de Garrett a uma poética de fogo lento

 

Sérgio Nazar David (n. 1964, Além Paraíba, Minas Gerais, Brasil) é sobretudo conhecido, entre nós, como investigador de qualidade nascido do outro lado do oceano, experimentado e obsessivo garrettiano como há poucos em terras lusas. Poeta, professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), fez o seu pós-doutoramento na Universidade de Coimbra (2006).

 

Publicou, em Portugal, O Século de Silvestre da Silva – vol. I – Estudos sobre Garrett, A. P. Lopes de Mendonça, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis (ensaio, Lisboa, Editora Prefácio, 2007) e O Século de Silvestre da Silva – vol. II – Estudos queirosianos (ensaio, Rio de Janeiro / 7Letras, 2007), tendo organizado uma excelente edição de Cartas de Amor à Viscondessa da Luz (Famalicão, Quasi Edições, 2007), de Almeida Garrett.

Nesta obra, de leitura obrigatória, não só o estudioso do autor de Frei Luís de Sousa actualiza a ortografia das cartas – fazendo os termos da época surgir na sua cor original –, como corrige transcrições defeituosas e decifra palavras. O Garrett que Sérgio Nazar David nos apresenta, na singular introdução, é um ser de «estranha inquietude», usando a expressão de Freud, analisado também segundo a psicanálise e a antropologia social, ou seja, à luz da perturbação interior, da culpabilização, do conflito entre amor e desejo sexual. É ele quem vê Rosa «com olhos da alma», adorada e anjo, e com ela mantém uma relação clandestina que terminará num irreparável desencontro que nem a iminênciada morte do escritor recomporá.

Membro da Equipa Garrett do Centro de Literatura Portuguesa (CLP), sob a orientação de Ofélia Paiva Monteiro (OPM), Sérgio Nazar David prepara agora a Correspondência Familiar do autor de Viagens na Minha Terra, com publicação prevista para 2011, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda [ler dossier na Colóquio/Letras (nº 174), disponível em Maio, dedicado à edição crítica desta última obra, organizada por OPM]. O volume inclui, ao todo, 105 cartas, 64 ao irmão Alexandre, 52 das quais inéditas, 40 à filha Maria Adelaide (onze inéditas) e uma outra (inédita também) à mulher Luísa Midosi.

É, no entanto, o poeta perplexo, apaixonado por Portugal e sua literatura, que trago a este espaço, aquele que reinventa, no quotidiano, o conteúdo da escrita, atribuindo-lhe, como escreveu Boris Pasternak a Rainer Maria Rilke1, em tempos diversos nomes diferentes. Que é da poesia se não desenha, a traços claro-escuros, uma a uma as coisas do mundo, uma cartografia da condição humana?

Sérgio Nazar publicou, até agora, dois livros de poesia: Onze Moedas de Chumbo (Rio de Janeiro, 7Letras, 2001) e A Primeira Pedra (Rio de Janeiro, 7Letras, 2006, nomeado para o Prémio Portugal Telecom 2007). Regra geral, trata-se de uma poesia elíptica a sua, de dimensão narrativa e grande apego a um quotidiano que a palavra torna onírico, como se o poema fosse laboratório e o modelo romanesco se transformasse em companhia no seu atelier de autor contaminado por uma cultura oitocentista.

Servem-lhe os versos para agudizar formulações mais vastas de interrogação interior, seguindo o autor um ritmo cuidado, tão lírico como, por vezes, áspero. Não existe o verbo no intervalo da batida, na tensão criada entre silêncio e som, abrindo-se o texto tanto à harmonia quanto à ruptura? Nos inéditos que se divulgam agora, do novo livro de Sérgio Nazar David, Tercetos Queimados, Portugal é personagem não só enquanto função emotiva, mas paisagem, pormenor autobiográfico ou pessoana deriva.

As dissonantes notas desta escrita de nostálgica celebração dão o mote a uma poesia/prosa subtil de suavidade, atravessada por um fogo lento, estanhado. Nesse sentido, podem ler-se os inéditos – nos quais o sentimento de ausência, de finura líquida, se vai densificando –, a partir de um sujeito poético que revela sinais da enevoada incompletude, de esmagamento do desejo, de uma breve existência entre a exaltação e uma força sombria.

Veja-se como a cultura portuguesa atravessa a seiva destes poemas.

                                                                                                                    Ana Marques Gastão


Inéditos de Sérgio Nazar David

1. 

Não tenho poema. Tenho (quase ponho tremo)

já agora pouco para ti. A vírgula, o acento

inútil, tão pequeno, ainda sabe entretanto

a Amor. É estranho amar-te, ver-te atrasado

num email de aniversário com palavras desiguais…

Tudo tão distante – balões que vão sonhando –

e estranho, amor, amar-te ainda. Tenho deixado tudo:

num velho caderno as notas de viagem de Berlim,

no ap de Lisboa os hieróglifos da tua mão

quando nevou, na pedra em que repouso

o fado de misérias. A coleção dos teus ditos  

telegráficos (talvez ainda falte algum) segue

e até rio do castelo de cartas que compus.

Devagar empalidece a rosa em que dormíamos.

2.

Numa tarde, num café de Lisboa

(por instantes se pode fugir do tédio,

do absurdo desejo de sofrer), um livro

trouxe-me o que um dia eu quis

e o corpo reteve (a alma não).

O difuso (ou parte incorpórea?)

dá-se em livro, agora, urgência

recoberta de cinza e espinho.

Haverá outro modo de tocá-lo

que não este, alheio à geografia

do poema? Quis para sempre

o livro e os três quartos de hora

que passei, morto, lendo. Porém –

como à tarde na cidade ou dentro

do passado que relembro – vivo

em tudo às cegas, não entro em nada

por completo. Agora, por exemplo,

me pergunto: por que me abro,

por que me entrego e nunca estou liberto?

3.

Queria agora dizer-te espera,

espera um pouco mais… Tendo

vivido à tua espera, vi-te entrar-me 

num 27 de fevereiro, sexta-feira,

com um chinelo gasto, um short,

um maço de cigarros, poucas palavras,

nenhuma sorte e uns poucos gestos,  

que mesmo o amor tratou de comer.

Naquela fria e leda madrugada,

depus jogos e armas: vinha de noites

antigas (não disse quais), mostrei-te

os óculos azuis (já não posso usá-los

como queria), disse-te ser um animal

que pouco pode com o som estrídulo 

dos verbos. Por mais finos, são,

com abstrusas derivas, grito engolido,

carne ultrajada, osso que salta do corpo

sem preparação. Teus braços foram-me

um rio que sai de repente das pedras.

Hoje não quero ser nada senão aquele

que corria aos cafés de Lisboa a ler

mensagens telegráficas.

Morri com 

as tábuas que gravei lembrando-te

e ainda hoje daria o pouco que sou

por ver-te como eras:

rosa impura, que o tempo

macerou.

4.

O rosto mais rubro

do silêncio era tua moeda e morada

(se já não estavas).

Com elas compus um verso livre

a dizer-te: "quando

vieres, seja dormindo." Que não te lembres

depois do que fizeste

comigo e das palavras que dizes enquanto

cruzas-me o corpo.

Quero entregar-me sonhando como

se fosse morto.


 

 

 

1 Correspondance à trois (Rilke, Pasternak, Tsvetaiëva), Paris, éd. Gallimard, 1983, p. 35; Correspondência a Três – Verão de 1926, Rainer Maria Rilke / Marina Tsvétaïeva / Boris Pasternak, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. Armando Silva Carvalho, 2006).

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