
Prémio Camões 2016, “Um Copo de Cólera” (…) «tem mais poder nas suas poucas páginas do que a maioria dos livros com cinco ou dez vezes mais páginas» e assim é, tal como publicou o The Guardian. Depois de ler “Um copo de cólera”, lancinante extremo da literatura portuguesa, as perguntas fundamentais e seus sinais são força de fogo.
Trata-se de um livro profundamente invulgar, de uma ferocidade sôfrega que se desenvolve a partir de uma noite de amor e de erotismo em que dois amantes se entregam numa experiência intensa e rara, e eis que surge o extraordinário de assim a escrever, e a necessidade presente do alguém que tem de pagar queira ou não, o suporte espontâneo da cólera ou não fosse esta o melhor alívio da culpa que se suporta no eixo do peito.
E muitas vezes fiquei sem ar nas páginas deste livro. Tudo nele é de rajada numa verdade hemorrágica, lasciva e ungida na força dos pensamentos independentes, quando se sabe que os cães acorrentados trazem feras no avesso, e que mais não somos nós do que acorrentados? mesmo quando rogamos que os pés do nosso homem possam ser dois lírios brancos, e a nossa cela os aceite como macho absoluto do nosso barro numa prosternação de meu amor sacana.
«que tanto você insiste em me ensinar?».
«estou descalço» dizia, e ela nunca tivera dele o bastante, só o suficiente. Sempre o dissera.
Ela, essa femeazinha fascista que se regozijava da perspicácia que lhe atinava também como mulher que atua, e que enxotava quem é fraco, querendo-o. E ele querendo sempre transformar em graça o ferrete que ele próprio carregava, Deus meu! numa forte iluminação da bofetada no rosto dela, gritando-lhe o quanto, o que contava na vida era a qualidade da descida, ó carcaça, cérebro de pilantra, tudo o que vomita, é tudo coisa que você ouviu de orelhada.
Mulher mais gatuna é a que abre a boca e os dentes não contam idade, para sob ela encobrir que quer castrar seu homem, chamando-lhe de «mestre» e alfinetando-o com o fogo das palavras e das ancas, misturando razão e comoção e sempre metodicamente a querer que ele seja seu filho igualzinha à maioria das mulheres que nos momentos de emancipadas querem seu macho num tempo diferente da geometria passional.
E num instante ele era o canalha da cama e o canalha que ela ama com volúpia e recuo, e ele, descalço, e ele a levá-la à entrega hipnótica por sua tão própria linguagem, essa linguagem que fora ele que lhe ensinara, ele, o sem estudo, e ela metálica de curso feito, tanto quanto o seu riso escárnio não entendia que era a fascista pior do que ele, pois não sabia que o era em nome da sua razão.
Gritavam um ao outro os demónios internos de cada um, as velhacarias bem sufocadas que tanto insistiram em os ensinarem numa farsa tão sinistra quanto esplendida, sobretudo quando tudo se incendiara com a demolição da cerca que as formigas metodicamente tinham derrubado. Ou talvez não. Talvez tudo se iniciara com a decisão de usar veneno para as sufocar na toca que se pisaria depois com um calcar definitivo ao ar. Uma força contra a vida ou contra uma outra direção, mas uma força.
E ele recebia dela umas mãos no banho que lhe dava depois do amor ou do sexo, movendo-se doidamente quando ela lhe apanhava os cabelos num ritmo que ela cumpria e ele só sabia que se entregava (…) «para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo».
Sempre, de um modo ou de outro a nossa infância recorda-nos ideias acabadas e sem a confusão da idade grisalha. Li neste livro a dor desta claridade da infância ser mais pedra que saudade, mais absoluta solidão depois do concluir o austero dejejum do colo dos pais imperfeitos, e tão amados, naquele tranquilo labirinto dos enigmas do então.
E começara já os latidos mais desesperados entre ambos como se se quisessem aniquilar um ao outro, abrindo covas fundas e de inesquecíveis dores um no outro, com tudo o que certeiramente se diziam, pois que ambos não eram gente, ou eram-no porque.
E já em indicações díspares de destino ela fugira para sempre e ele fingira que adormecera até ao dia seguinte, abandonando-se qual menino na sua própria cama, mulher anforal, e ela entrava já devagar no dia depois, pela manhã, e clareando a emoção por entre as lágrimas secas, acedia à condição relativa, sabendo que numa porventura certeza aos dois e a um tempo, se embalava a realidade, enquanto um seio despertava a vontade de a ambos e em ambos se proteger.
Assim li este mundo que Raduan Nassar, num ímpeto de copo de cólera, partilhou, bem como, o quanto a fórmula de a beber, assim estilhaçada, é cortante, mas esclarecedora. E deste modo, Nassar deu unidade à Coisa depois do confronto dos violentos segredos que nos prendem e nos racham numa única razão de amor e de vida. Numa razão de perder princípios, por vezes, avaliando mal o tamanho das formigas e do medo.
Por mim diria, que neste livro os amantes ainda se disseram um ao outro, serem a única coisa que se deixavam mutuamente. E se este dizer era ataviado, sem dúvida, eles o conheciam como lugar central.
Teresa Bracinha Vieira
Setembro 2014