
Os 150 anos do Teatro da Trindade, efeméride que já aqui referimos, foram agora assinalados com o lançamento de dois livros e por uma sessão evocativa: e apesar da permanência em atividade de outros Teatros em Lisboa, como designadamente o São Carlos ou o D. Maria II, há que realçar o evento.
Até porque o Teatro da Trindade, como aliás aqui temos escrito, constitui um referencial de criação artística de espetáculo, cobrindo o teatro declamado, o teatro musicado, a ópera, o bailado, o cinema e em geral, a atividade cultural mesmo quando não diretamente ligada ao espetáculo.
E nesse sentido, começamos por assinalar a exposição evocativa da efeméride, “uma ideia de José Carlos Barros”, diz o catálogo. E lá se transcreve com a linguagem da época e com a grafia aqui atualizada, uma notícia da inauguração do Teatro da Trindade, em 1 de dezembro de 1867:
“Os fastos do teatro português registam mais um acontecimento memorável. É a inauguração do Teatro da Trindade, novo templo erguido ao culto da arte de instruir e civilizar as turbas por meio da representação ao vivo dos factos da vida social e familiar e da luta das paixões que agitam a humanidade, ou sejam viciosas e ridículas ou sejam virtuosas e sublimes. Muito deve o país a todos aqueles que dedicam seus esforços e capitais a obras de tanta magnitude, e o município de Lisboa deve felicitar-se por ver sair de um montão de ruinas tão belo edifício, que é um novo título de glória para o novo arquiteto o sr. Miguel Evaristo”.
E a notícia segue com elogios do espetáculo de estreia, “com o novo drama A Mãe dos Pobres do distinto escritor o sr. Ernesto Biester”, assim mesmo, na presença da “família real e considerável numero de cortesãos e titulares (que) abrilhantavam o numeroso concurso (sic) que enchiam o teatro”… (cit. Diário de Notícias 3 de dezembro de 1867 in “O Nosso Teatro…”ed.TeatroTrindade.INATEL.PT 2017).
Mas o que aqui quero assinalar é a publicação de dois livros, largamente documentados e ilustrados, sobre os 150 anos do Trindade, a saber, «Teatro da Trindade 150 anos – O Palco da Diversidade» da autoria de Paula Gomes Magalhães, e «Francisco Ribeiro “Ribeirinho” – O Instinto do Teatro» da autoria de Ana Sofia Patrão (ambos ed. INATEL e Guerra e Paz 2017).
Profusamente ilustrados, ambos os livros marcam a celebração dos 150 anos do teatro realçando, o primeiro, a poderosa intervenção cultural feita através do Trindade, nos domínios do teatro mas também da ópera, da opereta, do cinema, da revista, do bailado.
E parece também adequado o realce dado ao Ribeirinho e designadamente ao Teatro Nacional Popular – TNP que marcou profundamente, no Teatro da Trindade, a modernização da cultura teatral portuguesa com a estreia de “À Espera de Godot” de Samuel Beckett em 1959: repita-se, marcou profundamente um movimento de modernidade na cena portuguesa, aliás inesperada dada a época e as condições de exploração da atividade teatral…
Nesse aspeto (mas não só) o livro de Ana Sofia Patrão é extremamente elucidativo dos contrastes, paradoxos e contradições inesperadas que marcavam a atividade teatral na época, mesmo para quem não levantava problemas de ordem politica imediata.
E o livro de Paula Gomes de Magalhães, ao historiar os 150 anos do Trindade, realça a relevância que o Teatro alcançou e conseguiu manter, numa feliz sequencia de sucessivas iniciativas e gestões artísticas, de que salientamos as seis companhias analisadas no capítulo intitulado “A Era de Renovação” – Comediantes de Lisboa, Teatro d’Arte de Lisboa, Teatro Nacional Popular, Companhia Nacional de Teatro e Teatro do Gerifalto – da Companhia Portuguesa de Ópera, e da Companhia de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro a partir de 1970.
Em 1974, com a extinção da censura, regista-se no Trindade um movimento global de estreias e apresentação de companhias e peças, muitas delas antes proibidas, a começar por Bertold Brecht pelo Teatro da Cornucópia em outubro daquele ano, a que se seguiriam outras peças do mesmo autor a cargo da Companhia de Comediantes Rafael de Oliveira, e ainda variadíssimos espetáculos de grupos e de autores diversos, portugueses e estrangeiros.
O Teatro da Trindade passou então a ser uma casa referencial de acolhimento de companhias diversas e dispersas. Recordemos designadamente, e acordo com o livro de Paula Gomes de Magalhães, espetáculos do Teatro de Campolide, do Teatro da Cornucópia, da Barraca, do Cendrev, do Teatro Experimental de Cascais, do Teatro de Animação de Setúbal, e novamente espetáculos de ópera, numa sucessão de iniciativas e de autores de que destaco para terminar alguns autores portugueses: Jaime Salazar Sampaio ,Norberto Ávila, Diogo Freitas do Amaral, Filomena Oliveira e Miguel Real, Luis Francisco Rebello, António Torrado, e outros mais…
DUARTE IVO CRUZ