
Minha Princesa de mim:
Para nos ajudar na reflexão sobre esta problemática da legitimação de Jerusalém como capital do presente estado de Israel, isto é, com a dimensão territorial e histórica que lhe pretendem atribuir, tantas vezes ao arrepio dos direitos internacional e humano, traduzo-te (da edição francesa do Courrier International, da primeira semana deste fevereiro) passos dum trecho de artigo originalmente publicado (a 23 de janeiro) no Maariv de Tel Aviv e assinado pelo israelita Ben Caspit:
Ao pronunciar o seu discurso diante da Knesset [a 22 de janeiro], Mike Pence inundou-nos de louvores e de beijos, de apaixonadas declarações de amor. Nada fingido, bastava ver o seu olhar determinado. O discurso era quase perfeito. O seu amor por esta terra está cheio de admiração por Israel, o povo judeu, a santidade do país de Israel, e mais não digo. Mesmo Netanyahu, o rei do género, não poderia ter feito melhor, e eis sem dúvida o maior elogio que podemos fazer a Mike Pence, sem ironia.
Pence parece, à primeira vista, um homem político americano clássico. Cabelos brancos bem penteados, fato de bom corte, palavra fluida e carisma tranquilo. Pence pronunciou um discurso impressionante, cheio de referências e inovações. Marcou para o fim de 2019 a data limite da transferência da embaixada americana para Jerusalém. Confirmou que se o acordo sobre o nuclear iraniano não fosse corrigido pelas partes envolvidas, os Estados Unidos dele se retirariam unilateralmente. Repetiu que Israel é o aliado mais essencial da América.
Mike Pence é a incarnação dos sonhos da direita israelita em geral e de Netanyahu em particular. Contrariamente ao atual presidente americano, caprichoso e imprevisível, Pence é um homem calmo e piedoso. Ao pronunciar um discurso em que pesou bem cada palavra, deu-nos essa massagem tailandesa com fundo de música apaziguadora.
O amor de Pence pelo povo de Israel e os judeus mergulha as raízes nas suas convicções evangélicas. Segundo a fé evangélica, quando vierem a Redenção e o Messias (entenda-se: Cristo) todos os judeus se reunirão em Israel e se converterão imediatamente ao cristianismo. Mesmo que pensemos que esse dia nunca chegará, é bom sabê-lo, já que, nos Estados Unidos, há 60 milhões de sionistas em potência, evangélicos que se supõe estarem enamorados de nós até ao fim dos tempos…
… Mas não são as apaixonadas declarações de Mike Pence em Jerusalém que nos ajudarão a resolver o nosso conflito com os Palestinos. Quando formos grandes, caber-nos-á decidir o que queremos ser, definir, de uma vez por todas, as fronteiras do nosso Estado. É pena não ser possível substituir todos esses Árabes por cristãos evangélicos que acreditam na vinda de um Redentor a Sião. Ainda que talvez fosse preferível que esse Messias nunca viesse, porque teríamos então de nos converter ao cristianismo!
Não conheço o senhor Ben Caspit, não sei que juízo fazer das sua palavras. Mas sei que, para o movimento sionista, com motivação religiosa e escatológica, o regresso a Sião (que significa a terra de Israel (Eretz Israel) e Jerusalém, o regresso do «Povo Eleito» a esse lugar histórico-teológico é condição sine qua non da vinda do Messias, pelo que a reivindicação do poder absoluto do estado de Israel sobre a «Terra Santa» é assim fundamentada politicamente… Ou sê-lo-á teocraticamente, sem qualquer fundamento no direito internacional, que é, este sim, o direito positivo das gentes? Pessoalmente – e não sendo eu próprio judeu, mas tendo muitos amigos que, com ou sem religião, se reclamam do judaísmo – gostaria de poder dar a uma declaração de Theodor Hertzl, fundador do sionismo, uma interpretação rigorosamente política e respeitadora do Direito, tal como o entendemos na definição de justiça dada por Ulpiano, jurista romano, que tantas vezes, Princesa, já te citei: Justitia est jus suum cuique tribuendi. Quero crer que, ao escrever no seu O Estado Judaico as frases seguintes, Hertzl quis mesmo dizer o que lá está escrito: Eu considero a questão judaica não como uma questão religiosa ou social, mas como uma questão bem nacional. Para resolvê-la é necessário, antes de mais, colocá-la em termos políticos à escala mundial. Poderá então ser regulada no quadro do conselho dos povos civilizados. Nós somos um povo. Com toda a certeza: um povo como os outros. sem mais nem menos direitos do que os que a justiça a cada um deve atribuir ou reconhecer. Li, creio que no jornal Le Monde do passado dia 2 de fevereiro, passos dum relatório dos representantes diplomáticos dos países da União Europeia em Israel, considerando que “a administração Trump quebrou o consenso internacional acerca do conflito israelo-palestino, baseado no direito e nas resoluções das Nações Unidas”. Tal relatório aponta os malefícios da já antiga política israelita de marginalização económica, política e social dos palestinos em Jerusalém… …e como, em razão do isolamento físico e da política israelita restritiva de salvo condutos, a cidade já deixou de ser o centro económico, urbano e comercial palestino que costumava ser… Para não falarmos da continuação da ocupação, por decisão unilateral, ilegal e violadora de direitos territoriais e humanos, de terras palestinas por “colonatos” israelitas (não se lembram dos «espaços vitais» que Hitler reclamava?). Recordo que, pelo armistício de 1949, entre a Jordânia e Israel, Jerusalém permanece dividida entre dois países; e, pelo acordo de paz de 1994, entre eles celebrado, mutuamente se reconhecem a OLP e o Estado de Israel. Infelizmente, já nas conversações de paz, entre palestinos e israelitas, retomadas na Turquia, em 2008, a questão de Jerusalém não é abordada. Anos antes, o poeta judeu Yehuda Amihai (1924-2000) dissera que Jerusalém é uma operação cirúrgica que ficou aberta. Mas, no século XV (em 1434?), um viajante judeu, Elias de Ferrara, vindo da Itália à Jerusalém já sob domínio otomano, escreveu: Os Judeus de Jerusalém fazem, taco a taco, tratados com os Ismaelitas (isto é, os Árabes), e eles não desconfiam uns dos outros…
Resumindo o meu pensarsentir a questão palestina, designadamente a do estatuto de Jerusalém, tal como atual e dramaticamente se coloca:
Aos estado-unidenses diria que se lembrem dos seus “Pais Fundadores”, dos constitucionalistas que criaram o Distrito de Colúmbia para aí fixarem – e nunca em qualquer um dos estados federados – a capital federal dos EUA: Washington, D.C. Não vos parece recomendável que uma cidade-mundo, como Jerusalém é, que até já deu provas de poder ser a cidade santa de vários povos e credos, e símbolo de um encontro e convívio universal, seja uma entidade com administração própria, livre, independente de outros poderes políticos – inclusive e sobretudo dos que geograficamente a rodeiam e que, por consenso, a devem reconhecer como tal e proteger, sem que qualquer dos estados envolvidos faça dela sua capital própria?
Aos líderes de um estado de Israel, em que mais de metade da população judia se declara laica, e menos de 35% ortodoxa ou apenas praticante, pediria que refletissem no mal que outros terríveis nacionalismos populistas fizeram a milhões de judeus da diáspora, para finalmente também eles próprios, perseguidores, acabarem mal; e que pensem melhor no símbolo universal que Jerusalém, desde sempre mais cidade do Templo do que capital política, hoje é, para judeus e muitos que não o são, promessa de encontro, terrestre e celeste, de todos os povos da terra. E fazendo este apelo, nem preciso seria recorrer à insinuação de que a sorte das armas e dos povos não fica sempre virada para o mesmo lado… Basta-me evocar a memória do próprio judaísmo e o nome hebraico da cidade de que já te lembrei outras etimologias. Até acabam todas por concordar: a Shelem ou Salém referida no livro do Génese (cujo rei é o sacerdote Melquisedeque, que a Abraão oferece pão e vinho) já quererá dizer Shalom, Paz; Yerusalahim, em hebraico, cidade integral, Cidade da Paz. Lugar santo, acolhia todos os peregrinos, oferecia-lhes alojamento gratuito. Não foi dividida pelas doze tribos, nem entregue a reinos, porque era símbolo da paz entre todos. Na profecia de Isaías (2, 2-5), Jerusalém, centro da fé de Jacob/Israel, tornar–se–á na vocação religiosa de todos os povos: Pelo andar dos tempos acontecerá que a montanha da Casa de Yahvé se estabelecerá acima das montanhas e se erguerá acima das colinas. Então, todas as nações convergirão para ela, então virão inúmeros povos que dirão: «Vinde! Subamos à montanha de Yahvé, à casa do Deus de Jacob, assim nos ensine ele as suas vias e sigamos os seus caminhos». Pois que de Sião nos chega a lei, e de Jerusalém a palavra de Yahvé. Julgará entre as nações e será árbitro de numerosos povos, que quebrarão as espadas para fazer arados e as lanças para fazer foices. Já as nações não levantarão espadas contra as outras, e jamais se aprenderá a fazer guerra. Vamos, Casa de Jacob, marchemos à luz de Yahvé! Infelizmente, correntes do judaísmo insistiram em vincar uma linha de superioridade do seu povo e da sua religião, numa perspetiva nacionalista, tantas vezes soez, que talvez tenha marcado para mal o destino de uma nação que, enquanto tal, e fiel à Aliança, poderia sem mácula ser portadora de uma mensagem universal de paz.
Não me parece, pois, justificar-se qualquer receio de “ofensa” religiosa ou tibieza argumentativa no exercício do dever internacional de impor ao atual estado de Israel o respeito devido às disposições, acordos e resoluções que têm vindo a ser tomadas, consentidos e decididas no concerto das nações, relativamente à arrogância e à atuação de posição de força (sustentada pelo apoio dos EUA) de que aquele Estado vem impunemente usando e abusando.
E, ao afirmá-lo, não estou a falar de política, estou simplesmente a lembrar-me do dever fraterno de cultivar o espírito.
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira