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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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OS TEATROS DE LISBOA EM 1875 – III

 

O TEATRO DA TRINDADE

 

Temos aqui referido o livro de Júlio Cesar Machado, intitulado “Os Theatros de Lisboa”, com ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro e dedicado aos principais teatros de Lisboa, ou como tal considerados pelos autores dos textos e das ilustrações, a saber, o S. Carlos, o D. Maria e o Trindade, assim mesmo designados e ilustrados.  Referimos já os dois primeiros e hoje analisaremos o terceiro.

 

Como bem sabemos, o Teatro da Trindade era na época da edição o de mais recente atividade, pois estreou em 1867 e o livro é publicado em 1875, o que, nesse tempo seria considerado muitíssimo mais recente do que hoje…

 

Júlio César Machado assume essa “modernidade”. Escreve:

 

“Até hoje, não se sabe como e nunca poderá saber-se, mas a verdade obriga-nos a confessar que o teatro lá se aguenta como uma verdadeira novidade para Portugal, um teatro à francesa, uma bombonnière (sic) que alcançou, graças ao balcão, que enfim se pudesse admirar no teatro o vestuário das senhoras”.

 

E descreve o Teatro:

 

“De aspeto geral vistoso, elegante, conhece-se que se pensou em tudo, e até as cadeiras são de assento movediço. E chegaram a ter o que quer que fosse para segurar o chapéu, inovação adorável porque de todas as pequenas misérias que podem levar um homem de bem ao suicídio, não consta de outra mais irritante do que o embaraço que produz durante uma récita inteira este zabumbinha (sic) que uma pessoa ora põe ao peito, ora abaixo dos pés, e que apesar de todas as cautelas sai sempre o teatro amolgado, acochichado, arrepiado!” assim mesmo…

 

Fazemos esta transcrição porque nela encontramos como que um certo distanciamento irónico relativamente a um teatro na época muito moderno. E no entanto, a enumeração que Júlio César Machado faz em seguida dos elencos do Trindade, mesmo mantendo o tom irónico, confirma a qualidade e o prestígio que, logo nos primeiros anos de atividade, o Teatro da Trindade alcançou no meio social e artístico.

 

São nomes que na época constituíam o melhor o mais prestigioso elenco dos teatros portuguese. E os comentários de Júlio César Machado e as ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro amplamente documentam o prestígio que o Teatro da Trindade desde logo alcançou.

 

Rosa Damasceno, Ana Pereira, Delfina, Virgínia, Leoni, João Rosa, Augusto Rosa, Brazão, Cunha Moniz, formavam um elenco realmente prestigioso: e o que chegou até nós comprova esse prestígio na época.

 

Prestígio também de Francisco Palha, que tomou a iniciativa de contruir o teatro da Trindade.  Júlio César Machado, apesar da ironia que caracteriza todas estas descrições, não poupa elogios. Eis como refere Francisco Palha:

 

“Homem inteligente e ativo, de acordo com uma companhia de acionistas –  que são simplesmente os primeiros negociantes do país, à exceção de um que o não é, mas que me dizem não ser completamente desprovido de posses, o sr. Duque de Palmela- lograssem edificar um teatro com pedra, cal, madeira e outras exuberâncias, não se podia acreditar que semelhante coisa conseguisse ir por diante…”

 

Mas foi, e dura até hoje, como aqui temos referido.

 

DUARTE IVO CRUZ

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