auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

10. PROPAGANDA

 

A propaganda tenta transmitir uma mensagem universal, absoluta, correta, válida, em que há inverdades.
A propaganda não é crítica. 
Faz passar uma mensagem de confiança, estabilidade, felicidade.

Por vezes faz o culto da personalidade. 
Há a propaganda eficaz, ineficaz, passageira, que sobrevive ao longo do tempo, académica e vanguardista, explícita e implícita.
O cartaz foi um dos meios que melhor a serviu. 
Há cartazes de propaganda que funcionam apenas como documentos. 
Outros são tidos como obras de arte, concordemos ou não com as suas mensagens.
Na antiga União Soviética, desde os tempos de Lenine, proclamava-se que a arte do ocidente era burguesa, capitalista e decadente, expurgando-se intelectuais criadores de obras tidas por misteriosas e produzidas para elites, sem significado para o povo. A arte deveria ser inteligível para todos. Tendo por fim o ideal utópico do comunismo, surgem obras com uma imagética e cromatismo imediatamente reconhecível, assertivas e poderosas psicologicamente a nível dos destinatários.
El Lissitzky, no período da Rússia pós-revolucionária, em plena guerra civil, com a guarda branca anti-bolchevique a tentar derrubar o governo de Lenine, concebeu um cartaz chamativo, simbólico e vanguardista, usando formas geométricas, planos sobrepostos e a cor branca, preta e vermelha do suprematismo. Derrota os Brancos com a Cunha Vermelha (1919), é um dos cartazes mais icónicos e intemporais, exemplo conseguido da arte utilizada para propaganda. A sua simplicidade, pioneirismo, estética, atração e magnetismo influenciaram muitos designers gráficos, bandas pop e agrupamentos musicais.
Outro caso célebre é o Cartaz de Propaganda do Livro (1924), de Aleksandr Rodchenko, em que no seu geometrismo e cromatismo usual sobressai um rosto feminino lançando uma mensagem em voz alta.
O sonho da arte ao serviço da propaganda, exprime-se também em obras de arquitetura pública, como o monumento à III Internacional (Torre), de 1919, de Tatlin, apesar de  só executada a maqueta preparatória. Sem esquecer inúmeros cartazes, esculturas e estátuas fazendo o culto da personalidade de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao.
Merece referência O Triunfo da Vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl, películas com influências estéticas e cinematográficas de Eisenstein, tidas como as melhores obras de propaganda de sempre, proclamando o esplendor do nazismo. Onde há uma propaganda explícita que tem de comum um culto dirigista, exaltante e típico de estados ditatoriais, em que foi banida a arte pela arte e a liberdade de expressão e pensamento.

 

15.05.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *