auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

 

A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.

 

– Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?

 

– Sim Rita, claro que sim.

 

(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.

 

Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.

 

– Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.

 

Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.

 

Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?

 

Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Tags

natal

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *