
Se sei viver só?
Quem sabe?
Nessa imagem revelada pelas montras
Passeia-se a rua interior
De mão dada com cada um
Ou não fossemos a primeira e última
Trincheira
Unida a outra e a mais outra
Corredores sem fim e labirínticos
Por entre as mensagens como flechas
Chegadas ao nosso, meu coração rebentado.
Se sei viver só?
Quem sabe?
Cada um compõe a alegria obrigando-se a voltar
Eu a ti e às tuas pálpebras regresso
Para que me ampares o terror experimentado
Na aberta realidade aquela que arboriza a solidão
Sem água
Rosa dos muros, cama das poeiras, orçamento que vela
O nada escrito no pleno dos vazios
Quando se renova a procura de nós
E a rota que turista se passeou à nossa janela
Quando o amor e só ele era o acreditar.
E de novo
Se sei viver só?
Quem sabe?
O parapeito é sempre cais
De onde os sonhos quantas vezes partem confundidos
Por histórias banais que nos ficam na memória
Entrada nela por navios e a ti neles regresso
E afinal a inocência é muita
E por ela a morte passa
Na preocupação de fechar segredos.
E eu quero tanto aquele morango, aquela cereja
Porque a minha obra, se o for tem um fundo vermelho
De sangue e flor futura e cega
E foi minha a andorinha e os xailes esgaçados de tão rotos.
Se sei viver só?
Quem sabe?
A semente é feita de carne humana
Poeta, não grites, não!
Poeta, não deixes fugir as pombas
Ou escuta os astros
E por lá deixa teus olhos
Definitivamente muito definitivamente.
E de todos
Ai anjo que de nós foge
E que me procura há quanto?
Pasmo, quebro-me e vou-me dando
Só paro em deltas
Abraçada ao teu olhar
Porque assim os oceanos
Embrulham-me num musgo, naquele mesmo que foi
Manta de alma enquanto vivi
Enquanto espreito
Se sei viver só?
Teresa Bracinha Vieira