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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CUIDAR MESMO DO PATRIMÓNIO!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 20

 

Zygmunt Bauman, ao contrapor os exemplos do caçador e do jardineiro, põe a tónica na ligação necessária entre conhecimento e sabedoria. O caso do semeador ou do jardineiro, de facto, é muito fecundo. Falamos da essência da criação pela cultura. Muitas têm sido as iniciativas deste Ano Europeu do Património Cultural. E todos somos chamados a assumir a capacidade de garantirmos que quando recebemos o património material, natural ou contruído, e imaterial, bem como a criação contemporânea, estes devem ser preservados, protegidos, beneficiados e transmitidos nas melhores condições às gerações futuras. Não esqueçamos a etimologia que liga patres e múnus – o serviço do que recebemos de nossos pais. Eis porque o conceito de património cultural é dinâmico. A atenção e o cuidado têm de estar bem presentes, em especial quando tratamos do património onde quer que se encontre, na esfera pública ou privada, civil ou religiosa. Não deixar ao abandono esse património, significa protegê-lo – e essa proteção leva a cumprir algumas regras muito simples, mas essenciais:

(a) antes do mais, ter os bens com valor patrimonial em segurança;

(b) não deixar tais bens sem vigilância, sobretudo quando houver presença de público;

(c) só entregar a conservação e o restauro a especialistas com provas dadas;

(d) recusar intervenções de amadores ou de meras boas intenções;

(e) no caso de dúvida sobre o que fazer, consultar especialistas;

(f) sempre que há um bem ou uma peça em perigo deve ser guardada até que haja condições para ser restaurada nas melhores condições;

(g) realizar inventários rigorosos, que permitam conhecer o que existe e as suas características fundamentais;

(h) realizar fotografias e ter uma identificação precisa do que existe.

 

 

Lembremo-nos que uma medida tão simples como o fecho dos templos ou edifícios históricos quando não há um vigilante presente, permitiu uma redução drástica dos furtos, assaltos ou degradação de bens patrimoniais. Do mesmo modo, o projeto SOS Azulejo, que obteve o Grande Prémio da Europa Nostra também permitiu, graças a medidas de prevenção, uma proteção efetiva de conjuntos com valor histórico e artístico.

 

Muitas vezes, mais importante do que mobilizar ou reclamar vultuosos meios financeiros, torna-se essencial cumprir procedimentos simples que evitam perdas irreparáveis. Usar tintas ou colas desadequadas, utilizar materiais não aconselháveis, recorrer ao cimento armado sobre pedra, não usar dos mesmos materiais originalmente utilizados, – tudo isso pode ter como consequência a destruição irremediável de bens patrimoniais que duraram vários séculos e que mercê de uma intervenção errada são destruídos. É mais importante ter um inventário estudado e atualizado do que tentar fazer pseudo-restauros por amadores com consequências irreparáveis. Paralelamente, é importante dar a conhecer o património existente, através de ações pedagógicas com escolas ou associações da sociedade civil. Segundo o Euro-barómetro, publicado a propósito do Ano Europeu, os portugueses salientam-se pela positiva no reconhecimento da importância e do valor do património, mas também pela negativa ao terem sido dos menos classificados quanto a visitas a museus ou a ações concretas em prol do património cultural.

 

Lembremos a poesia de Afonso Lopes Vieira, sobre um jardineiro…

 

«Não há jardineiro assim, 
Não há hortelão melhor 
Para uma horta ou jardim, 
Para os tratar com amor. 

É o guarda das flores belas, 
da horta mais do pomar; 
e enquanto brilham estrelas, 
lá anda ele a rondar… 

Que faz ele? Anda a caçar 
os bichos destruidores 
que adoecem o pomar 
e fazem tristes as flores. 

Por isso, ficam zangadas 
as flores, se se faz mal 
a quem as traz tão guardadas 
com o seu cuidado leal. 

E ele guarda as flores belas, 
a horta mais o pomar; 
brilham no céu as estrelas, 
e ele ronda, a trabalhar… 

E ao pobre sapo, que é cheio 
de amor pela terra amiga, 
dizem-lhe que é feio 
e há quem o mate e persiga 

Mas as flores ficam zangadas, 
choram, e dizem por fim: 
– «Então ele traz-nos guardadas, 
e depois pagam-lhe assim?» 

E vendo, à noite, passar 
o sapo cheio de medo, 
as flores, para o consolar, 
chamam-lhe lindo, em segredo…»

 

E esta, hein?

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

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