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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A pintura de Virginia Verran – vastidão e precaridade.

 

‘Aquilo que às vezes parece

um sinal no rosto

é a casa do mundo

é um armário poderoso

com tecidos sanguíneos guardados

e a sua tribo de portas sensíveis.’, Luiza Neto Jorge

 

A pintura de Virginia Verran contem toda a complexidade da existência humana. Junta numa só superfície o vasto e o íntimo, o sublime e o frágil, a energia e a inércia.  Tem a capacidade de, à escala de um corpo, se relacionar com o espaço imenso do universo mas também com o espaço mais minúsculo que limita o indivíduo. As pinturas de Verran concretizam sons, reverberações, todas as deslocações periféricas e todo o fluir do sangue nas artérias. Transmitem um forte sentido do constante perigo que contínuamente ameaça o ser humano – por dentro e por fora do seu corpo.

 

‘Um dia acorda-se e o abismo é berço.’, Luiza Neto Jorge

 

Nas pinturas de Verran advinha-se o espanto e a admiração pelo desconhecido, pela muito aturada sinceridade acerca do descontrolo, que o indivíduo experiencia, em relação à sua existência tão precária e periclitante. São pinturas que trazem os ritmos da pele, da temperatura, de sensações, da água, da terebentina, da atmosfera – o acaso e o acidente são usados como matéria.

 

‘Despedaça expor esta fractura,

Espiar por ela os meus amigos,

Fechados vários peitos, várias artérias,

pela máquina morte removidos.’, Luiza Neto Jorge

 

O corpo faz marcas, tem a capacidade de deixar traços que podem ficar para sempre.

Virginia Verran esfrega, escava camadas de tinta e traz a ilusão do movimento do tempo e da pulsação do espaço. Existe infinto. Nota-se uma grande exigência na execução.

 

‘Do cómico ao cósmico

Fomos, viemos.’, Luiza Neto Jorge

 

O desenho, por isso, nas pinturas é introduzido no meio de uma vastidão. Injecta nova informação, detalhe e camadas de espaço. Permite a transferência para a tela, do fluxo intuitivo da consciência. E traz a sugestão de bandeiras, hélices, bombas, traços de fogo, meteoritos, bactérias e células – elementos esses que agem como dispositivos formais, motivos que ficam na superfície do espaço, ambíguos e percussivos.

Nas pinturas de Virginia Verram verificam-se, assim, acentuados contrastes entre a tinta que se espalha imprevisível no fundo e as linhas finas e frágeis que introduzem uma descrição mais cuidada e próxima do que significa existir.

 

Ana Ruepp

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