
LEMBRANDO ANNA MASCOLO E A ARTE DE DANÇAR…
2 de abril de 2019
Hoje quero recordar Anna Mascolo e a sua extraordinária influência na Educação Artística em Portugal. Conheci-a bem. Foi, durante toda a vida, uma lutadora. Quem com ela contactou sabe como tinha ideias ambiciosas e arrojadas. Mas nunca era de desistir. Quantas vezes construiu generosos castelos no ar, mas nunca se deixava abater. Tinha a sabedoria necessária para encontrar uma alternativa, que lhe permitisse chegar por outro caminho ao destino que tinha idealizado. Não é possível falar-se no Portugal do último meio século sem contar com os seus projetos, as suas ideias, os seus exemplos e os seus discípulos. Era exigente, era determinada, era rigorosíssima, mas procurava pôr em prática uma visão ampla e generosa, aberta e cosmopolita de Humanidades. E com ela podíamos compreender a essência de ser artista. Arte é fazer como ninguém mais faz. Arte é realizar a beleza de modo irrepetível. Hoje, as neurociências provaram muito do que Anna Mascolo defendeu em termos práticos. No desenvolvimento da infância, as Artes estão em primeiro lugar. Tudo começa no exercício dos sentidos e a capacidade criadora tem a ver com o movimento e com a nossa relação com o corpo. Não há domínio de si mesmo sem recorrer ao valor da Arte. E em homenagem a Anna Mascolo, deixo um poema de Sophia de Mello Breyner e os fragmentos de uma entrevista… Nunca esquecemos que para Sophia dança se deveria escrever com S. Só assim se entenderia o movimento! Só assim se entenderia a singularidade… E assim oiçamos Sophia,
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen | “Coral”, 1950
E ainda a propósito da dança, Sophia disse em entrevista de Maria Armanda Passos:
Maria Armanda Passos – Desde quando este interesse pela dança e como?
Desde sempre. A dança é um elemento dionisíaco ligado ao ritmo e à despersonalizacão. (…)
MAP – Chegou a dançar, a aprender bailado?
Eu vivia no Porto quando era pequena e não havia nenhuma escola de ballet. Inventava danças sozinha. Anos depois não perdia os bailados que apareciam. Mas era tarde para aprender. Dançava muito sozinha e, quando os meus filhos eram pequenos, dançava para eles.
MAP – Às vezes ainda dança, Sophia?
…Muitas vezes imagino bailados e argumentos para bailados.
E a Eduardo Prado Coelho disse:
«E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô – que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas – um lugar onde eu entrava em bicos de pés – e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach – talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro».
Agostinho de Morais