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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

Não podemos eliminar as vulnerabilidades sem as reconhecer

Não há dúvida de que as grandes catástrofes, nomeadamente devido às alterações climáticas, têm exposto a vulnerabilidade dos nossos habitats.

Pouco ou nada resta dos espaços que caracterizavam as sociedades rurais e as suas culturas: a urbanização generalizada do planeta conduziu a um processo de transformação das sociedades, do seu modo de produção, da sua cultura e dos próprios indivíduos como bem chamou a atenção Henri Lefebvre.

Agora, tudo surge englobado no funcionamento do sistema urbano. Saímos da lógica da separação entre espaços e sociedades para uma outra lógica que se insere dentro da compreensão de tudo o que se relaciona, mas tudo inserido na urbanização generalizada.

A geografia, como explica Michel Lussault, é a ciência social do habitat humano, e este não se reduz ao alojamento, ele consubstancia o espaço-tempo de vida da espécie humana(…) o habitat liga o indivíduo a algo maior do que ele, ou seja, ao grupo, à sociedade, à espécie humana.

Na verdade, cada um de nós é um coabitante com outros (humanos e não humanos) e é essa relação o que nos liga ao grupo, ao sistema de valores, aos quadros de referência, o que envolve necessariamente que o ato de habitar seja uma atividade política já que funciona também em função das nossas escolhas, das nossas orientações, bem como das escolhas e orientações que nos são impostas.

Contudo, parece uma contradição que a globalização urbana insista na capacidade de eficiência que quer continuar a assumir na maximização das atividades económicas apesar das inúmeras catástrofes que expõem a vulnerabilidade deste sistema.

A pandemia de COVID-19 deveria ter bastado para provar como, dos centros comerciais aos hotéis, passando pelos aeroportos e outras infraestruturas, se geraram pânicos de destruição das logísticas implantadas — que tudo iriam amparar — e que conduziram, afinal, a medidas de controlo das populações; medidas que geraram a escolha do não questionamento das liberdades humanas, tornando as democracias aparentemente sólidas mais vulneráveis à violação.

O que nos quer engolir numa vida às avessas é o conteúdo de uma gaiola que só conhece punhos.

Em nome dos mortos, dos vivos, dos sacrificados, em nome dos estudos sobre a “ética do cuidado” (Carol Gilligan, Joan Tronto) neste planeta urbanizado, em nome dos sonhos, da responsabilidade geracional, repensemos as relações sociais, pois a vida vale a pena e é a nossa medida.

Teresa Bracinha Vieira

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