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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXXVI – SÍNTESE AO REDOR DA LÍNGUA E DA LUSOFONIA

2. ANÁLISE CRÍTICA DAS CRÍTICAS (I)


Tendo uma perspetiva crítica sobre as críticas anteriormente expostas, é redutora uma visão segundo a qual a lusofonia é uma tentativa de Portugal manter o neocolonialismo, com sobranceria em relação aos demais países que falam português. 

O pretenso colonizador e o fictício império já não existem, sendo a língua  apenas também nossa, não se vendo que Portugal tenha força para uma legitimação neocolonialista e impor-se como “força imperial” através da “língua do colonizador”.[1]   

O poder de hegemonia colonial português nunca teve a densidade do inglês ou francês, com a agravante de que a defender-se haver uma tentativa neocolonialista portuguesa, é legítimo perguntar se faz sentido em relação a uma ex-colónia como o Brasil, sabido que, de momento, o futuro da lusofonia está essencialmente dependente do interesse que tal país tiver por ela.

O mesmo releva quanto a outras ex-colónias que no futuro tenham potencialidades para se afirmarem e concorrerem por essa pretensa hegemonia, como é o caso de Angola. Já existe uma ex-colónia britânica que se impôs à ex-potência colonizadora, caso dos Estados Unidos da América, não pertencente à Commonwealth. Por que não o Brasil em relação ao espaço lusófono? Será pelo facto de já ter sido colónia portuguesa que não se lhe pode aplicar tal raciocínio?     

Não  serão os “descendentes” da Europa os novos impérios linguísticos do futuro?

Acresce que, se tudo indicia tentativas neocolonialistas, há também quem contra-argumente que os lusófonos e países da CPLP mais pobres só se interessam por tais realidades na medida em que as possam instrumentalizar em seu benefício. 

E no que toca aos países africanos em especial (para além de Timor Leste, na Ásia), foram eles que voluntariamente viram na língua portuguesa um instrumento de inclusão, de identidade e unidade nacional, sobressaindo o exemplo angolano, em que após a independência era segunda língua, priorizando-se os idiomas nacionais, tidos como afirmação identitária, que acabaram por falhar.

O próprio Alfredo Margarido, ao falar no novo estatuto de “língua imperial” do nosso idioma, realça que foram também as elites africanas (e portuguesas) que se apressaram a organizar uma justificação para a força agregadora do português.

Amílcar Cabral reconheceu que o português foi uma coisa boa que os “tugas” deixaram,  questionando se tudo o que vem do ex-colonizador é mau.

 

11.02.2022
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] Margarido, Alfredo, ibidem, Edições Universitárias Lusófonas, 1.ª edição, 2000, p. 76.

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