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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


108. CIVILIZAÇÃO E CIVILIZAÇÕES

Não há acordo quanto ao sentido a atribuir à palavra civilização.

São sinónimos de civilização o desenvolvimento, o progresso, o florescimento, o adiantamento, a cultura, por oposição ao atraso, à barbárie, ao retrocesso, podendo expressar boas maneiras, boa educação, superioridade cultural e intelectual, evolução científica e tecnológica, avanço político, social e cultural, ser singular ou plural, querer dizer Ocidente ou a Humanidade.


Começa por significar um elevado nível de desenvolvimento espiritual e social surgindo, pela primeira vez, em França, no século XVIII, segundo Braudel, em Gramática das Civilizações, tendo o eurocentrismo como o centro e farol do mundo, representado pelas conquistas científicas, tecnológicas, intelectuais e culturais da Europa Iluminista, onde a Razão iluminada é tida como a principal causa de progresso da humanidade. 

Porém, o termo civilização ganhou uma forma plural, deixando de resumir-se ao ideário eurocêntrico e realidades europeias emergentes do eurocentrismo, reconhecendo a existência de outras civilizações também suas contemporâneas, uma vez os seres humanos não prescindirem daquilo que lhes é específico, dado acreditarem que reside aí o sustento da sua dignidade e integridade perante os outros.     


Pode, por exemplo, falar-se em civilização ocidental, islâmica, hindu, chinesa e africana.   

Se o termo plural civilizações traduz o abandono de uma determinada superioridade civilizacional, a verdade é que civilização continua a ter em si mesma um juízo de valor que a faz coincidir com uma realidade humana privilegiada, mais evoluída, por confronto com as demais, mesmo tendo como assente que a barbárie pode ser um programa inscrito no seu próprio programa.


No seu ímpeto progressista e dominante, a civilização ocidental tomou os direitos humanos como uma verdade necessária e universal, na sequência do segundo conflito mundial, pelo que atualmente civilização integra também a paz, humanismo e ausência de crimes bélicos, contra a humanidade e de genocídio em tempo de guerra, mesmo que lícita, a par de uma difícil e paulatina aceitação de uma justiça penal internacional. 

E se bem que os direitos humanos não possam ser ignorados, por serem parte essencial do diálogo inter-civilizacional, resta saber até que ponto a sua origem ocidental inviabiliza a sua universalização e a noção de civilização que defende.   


Há quem fale no choque de civilizações, em que sobressai a tese de Samuel Huntington.       

 

03.06.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

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