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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

Quem testemunhara as primícias da doença?

  

 

Só se sabia que alguém ao aproximar-se sentira a iminência do vigor da morte.

Sabe-se também que uniu as letras e dali fugiu num passo aflitivo.

Ante o que vira, estranhava agora, o fato de estar vivo, e ainda que de rosto no chão, a desfalecer, sabia que não tinha sido infetado, assim lhe diziam as seguras palavras antigas do conhecimento: era imune.

Os novos vírus enfurecidos, abraçavam primeiro as cidades, antes de correrem aldeias e mundo em abraços de nó cego.

A área da epidemiologia esclareceu, que eles, os novos vírus, não se deixavam aprisionar, e que as criaturas nunca se moveriam mais rápidas do que eles, ou elas mesmas, não fossem as portadoras-ninho, onde eles, de vontade, se aninhavam.

Intrigante achado este, o de saber que as criaturas eram em si os vírus, apesar de amáveis e muitas vezes afáveis até em extremos.

Deste modo, todos eram testemunhas em causa própria das primícias da doença. Todos temiam o inevitável contato consigo mesmos.

Machos ou fêmeas, malditos cães e cadelas, uivavam, quem cuidará de mim? Escravos, eunucos, quem cumprirá as nossas ordens?, perguntavam os cientistas. E assim bradavam contra vivos e mortos que se negavam a servi-los, enquanto nos vírus deles próprios, um furor letal.

Às vezes, soube-se, as criaturas paravam e olhavam-se de olhos revirados, soltos, sem noção verdadeira da extensão da catástrofe, e iniciavam uma marcha em todas as direções, ignorantes de que tinham a doença no abraço a si, e que deles próprios, não saberiam o como iniciar uma debandada das ruas, das casas e dos próprios hospitais onde trabalhavam.

Amontoavam-se os cadáveres insepultos. O pânico impunha as condições.

Algumas criaturas voaram nos seus próprios aviões, numa fuga que incandescia de imediato e desaparecia sugada pelos buracos negros, enquanto outros ponderavam rezar, fazer quarentenas, peregrinar, e a coberto do caos, negociar a vida.

Esta era a doença na sua primeira erupção.

Foi quando se começaram a declarar casos isolados de criaturas de grau de infecciosidade mais baixo, que, enfim, se descobriu o imune, de rosto no chão, quase arrebatado de entre os mortos, e era o tal que unira as letras.

Inexplicável facto, este, de entre todos, imune.

De entre todos, a esperança. E nunca a sua responsabilidade fora maior: assim pensou, ainda de rastos a ler no chão.

Mas qual o matiz da diferença? Qual o motor que nele não ignorou o dever de resistência e de interpretação? Seria esta uma desigualdade natural? Sem pertencer a grupo, e era imune?

E fora, afinal, o estado de conhecimento que o fizera unir as letras em completude.

A vacina, um dia, nas cores de Sandro Botticelli.

Era noite. Só era de noite, e a minha falta de ar empurrava a cadeira de rodas na teima que me obedecesse.

 

Teresa Bracinha Vieira

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