De 8 a 14 de julho de 2024
A publicação de “Camões Uma Antologia” de Frederico Lourenço (Quetzal, 2024) constitui um acontecimento importante na celebração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, aproximando o grande poeta do grande público e de todos os estudiosos.

Uma Antologia reunindo as passagens mais importantes de Os Lusíadas e da poesia lírica camoniana, envolvendo sonetos, canções, éclogas e demais obras significativas é uma necessidade quando celebramos o quinto centenário do mais importante poeta da língua portuguesa. Daí a importância da obra de Frederico Lourenço Camões Uma Antologia (Quetzal. 2024), que pretende responder à pergunta feita por muitos: Por onde começar a ler Camões de modo a poder apreender o significado e o lugar de uma obra fundamental, também para a cultura contemporânea? E ninguém melhor que um classicista para nos ajudar nessa diligência. Daí a importância da matriz latina na poesia de Camões, único na afirmação de um idioma falado em todos os continentes, o primeiro do hemisfério sul, com capacidade de atração multifacetada que ultrapassa em muito a dimensão textual. E importa lembrar que a origem do português está na herança dos trovadores, que um rei poeta tornou língua oficial e que a maturidade do idioma comum foi atingida por um poeta genial, que se tornou símbolo da pátria, não apenas ao cantar as glórias do passado, mas assumindo a erudição e a expressão popular enquanto marcas de uma cultura e contributos de civilização.
O CONTACTO COM A DOCTRINA
Virgílio e Horácio estão bem presentes na poesia camoniana e “o que impressiona acima de tudo na poesia de Camões é a profundidade da sua cultura e das suas leituras: daquilo a que os romanos chamariam a sua doctrina”. E Frederico Lourenço insiste em que “se há poeta doctus na história da literatura que possa ser posto ao lado de Virgílio e de Horácio, esse é Camões”. E se não há prova documental da frequência do poeta da Universidade, o certo é que parece evidente o contacto com o ambiente académico através de seu tio D. Bento de Camões, cancelário da Universidade e prior dos frades de Santa Cruz de Coimbra. Além disso, Camões pode ter seguido lições do humanista André de Resende, a quem se deve a criação do neologismo Lusíadas, típico da preocupação neoclássica de encontrar raízes antigas contemporâneas da civilização romana. A verdade é que o épico teve acesso a bibliotecas, ligando intensamente a leitura e a memória. E nas Rimas revela-se um profundo conhecedor de Petrarca e dos seus seguidores em Itália e Espanha. E Os Lusíadas, desde as primeiras palavras, revelam um conhecimento profundo da Eneida e dos principais clássicos latinos. Do mesmo passo, as redondilhas das Rimas pressupõem um conhecimento seguro do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e a dramaturgia do Autos de Filodemo, dos Anfitriões e d’El-Rei Seleuco evidencia o conhecimento certo dos modelos italianos e ibéricos. E se não encontramos em Camões nem Beatriz, nem Laura, como fixações individualizadas, há as raízes trovadorescas das cantigas de amor e de amigo, na medida velha, enriquecidas com a medida nova, trazida por Sá de Miranda. Mas, seguindo a boa lição de Jorge de Sena, a melhor atitude na leitura camoniana é a recusa da tentação biografista, apesar das “puras verdades já por mim passadas”. E quando lemos “Transforma-se o amador na cousa amada / por virtude do muito imaginar” é a inspiração de Petrarca que se nota – “l’amante nell’amato si transforme”… Há, pois, a relevância da poesia como processo criativo próprio, com reminiscências pessoais, quer para proteção da intimidade, quer como afirmação pública do valor próprio. E se há afirmação autobiográfica, ela não se encontra escondida, mas está claramente afirmada em Os Lusíadas, no Canto décimo: “Nem me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado” (154).
LIDAR COM UMA OBRA-PRIMA
O genial poeta encontra-se, porém, envolto em mistério no caso mais evidente da publicação da sua obra-prima. De facto, não estamos perante uma figura ignorada ou subalterna. Camões não foi um poeta maldito. O período em que morreu, esse sim, foi de angústias e tensões. A publicação do célebre poema obteve um parecer favorável da Inquisição, o que pode surpreender, em contraste com as desconfianças depois encontradas, designadamente no comentário de Faria e Sousa, em 1640. Mas o rei Filipe I de Portugal não escondeu admiração (quiçá política) por quem sabia ser um símbolo de Portugal, em respeito com as decisões de 1581 das Cortes de Tomar… Mas é a história de um pelicano que nos fixa as atenções. Subsistem cerca de 50 exemplares da edição de 1572, iguais em quatro erros, com algumas particularidades, devidas à complexa organização dos vários cadernos que os constituem, avultando a posição do pelicano no frontispício e a diferença na expressão “E entre gente remota edificaram” e “Entre gente remota edificaram”. Deve-se hoje a K. David Jackson, Vítor Aguiar e Silva e Rita Marnoto a demonstração de que a realidade da edição de 1572 é muito mais complexa do que as simplificações que se foram repetindo. E merece atenção o exemplar que se encontra em Austin, na Universidade do Texas, com anotações do padre católico, um indiano convertido, que testemunhou a morte de Camões e que anotou no referido exemplar que o poeta faleceu no hospital sem um manto para se cobrir… Mas, como ler nos dias de hoje a obra de Camões? Ninguém duvida (…) que o seu mundo era profundamente diferente do nosso. Contudo, Os Lusíadas à semelhança da Eneida contém a semente do seu próprio contraditório. Como não encontrar em Virgílio e em Camões nas entrelinhas das obras outras vozes, distantes da lógica imperial, capazes de reconhecer uma lógica emancipadora, decorrente do significado humano da literatura? De facto, também Camões quis que ouvíssemos outra voz, além da triunfalista. “Quis que soasse no seu poema uma voz a transmitir a consciência pesarosa da limitação humana”. E aí está o Velho do Restelo, como voz crítica, com o saber de experiências feito, pondo-nos de sobreaviso para a glória de mandar e a vã cobiça. Daí o alerta do canto nono: “E ponde na cobiça um freio duro / e na ambição também, que indignamente / Tomais mil vezes, e no torpe e escuro / Vício da tirania infame”…
Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença
Obrigada! Gosto muito de ler os seus textos e aprendo muito. Também gosto muito de Eduardo Lourenço, mas não vou ler esta Antologia. Já anotei algumas das ideias de Eduardo Lourenço sobre o poeta, a sua rebeldia, a ideia moderna de que a verdade depende essencialmente das circunstâncias históricas, e que o que mais interessa a Lourenço é o Camões que constrói a «alma colectiva».
Mas porquê esta insistência em Camões? Começaram-nos a ensinar Camões logo na adolescência. E continuam no século XXI a impô-lo, 500 anos depois da sua existência. Está bem que ele teve o grande mérito de cantar a grandeza de que os portugueses foram capazes naquela altura e conseguiu espalhar a língua portuguesa. E razão quando afirma: “Nem me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado”.
Mas não me parece que nos tenha deixado “obra fundamental, também para a cultura contemporânea”. Ele estava longe de representar toda a alma portuguesa:
. Era um nobre, enquanto a maioria da população era terceiro estado (povo);
.Os Lusíadas são uma obra de ficção;
. “Em várias flamas variamente ardia.”, enquanto as mulheres portuguesas (maior número em relação aos homens) eram virgens até ao matrimónio e depois quase celibatárias (os maridos andavam embarcados, emigrados….);
. Contraditório (cf. António José Saraiva);
. “doctrina”? Ainda não percebi qual era a de Camões.
. “a proteção da intimidade … como afirmação pública do valor próprio” é completamente anti-cristã. É a máscara, a persona, a forma de ocultar a verdadeira natureza da pessoa.
Tenho uma pergunta malandra, em relação à frase: “…padre católico, um indiano convertido, que testemunhou a morte de Camões e que anotou no referido exemplar que o poeta faleceu no hospital sem um manto para se cobrir”. Porque é que esse padre não procedeu como S. Martinho?
Muito obrigado pelo comentário. O paralelo que Frederico Lourenço estabelece com Virgílio e a “Eneida” tem razão de ser. A atualidade de Camões tem a ver com uma mensagem universalista, visando um diálogo de culturas, em lugar da lógica da conquista ou da dominação. Nesse ponto aproxima-se da “Chave dos Profetas” de Vieira.