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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

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  Sede das Nações Unidas   

 

224.  A CIVILIZAÇÃO NÃO É IMUNE À BARBÁRIE

 

Barbárie, numa interpretação mais literal e usual, é sinónimo de atrocidade,  bestialidade, brutalidade, crueldade, rudeza, selvajaria, denunciando um mal radical, maioritariamente impulsivo, racionalmente difícil de compreender. Como sinonímia de civilização, há o desenvolvimento, erudição, florescimento, humanização, uma visão da História como uma caminhada no sentido de um progresso não apenas científico e técnico, mas também moral, ético e cultural.

O político e usualmente correto sempre pensou a barbárie como uma herança da ignorância, do atraso, da incivilidade, de pessoas monstruosas, selvagens e desumanas ou seres excecionais cheios de perversidade. Civilização, por sua vez, está associada a uma conceção evolucionista da História, aliada a uma ideia de progresso, boa educação e fino trato, em relação à qual a barbárie é sempre uma regressão, um recuo ou retrocesso civilizacional.

Só que a experiência histórica demonstra que é ilusória a dicotomia barbárie/civilização, como se um termo excluísse automaticamente o outro, dado que a noção de barbárie como regressão a uma época de violência arcaica é fraudulenta e uma falsificação, porque ela não é anterior a um estado de cultura e de civilização, como o provou a primeira e a segunda guerra mundial.

Sempre se matou e houve violência em todo o mundo, o que é parte integrante da história da humanidade, mas surgiu uma grande incompreensão e perturbação em relação ao holocausto, à Shoah, dado concluirmos que a barbárie nazi foi um produto da civilização, do progresso e da técnica. Houve necessidade de matar de um modo voluntário, ordenado, organizado, programado, metódico, massivo, selecionado. Não foi uma consequência de impulsos ou instintos primários, pois teve lugar num dos países mais desenvolvidos, industrializados e cultos, à época, em que a solução final foi assumida como um objetivo nacional, intencional, em que a inteligência se confrontou também com a necessidade de matar com eficácia.

Como aconteceu em pleno século XX, numa das sociedades mais evoluídas, com uma cultura antiga, só prova que a barbárie pode emergir como uma condição interna da própria civilização e não como algo que lhe é exterior.

Argumente-se ou não com a génese da natureza humana, a necessidade de arranjar bodes expiatórios que acalmam a consciência das pessoas, com a sua colaboração, indiferença ou negacionismo, o termo “barbárie” regressou, infelizmente, à atualidade, como um processo inscrito no programa da civilização, não sendo um acidente de algo geograficamente e temporariamente distante, embora seja sempre imprescindível nunca desistirmos nem a ela nos resignarmos.

05.09.25
Joaquim M. M. Patrício

 

 

 

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